outra vez

18 12 2009

Eu queria que esse natal fosse diferente de todos os outros, mas igual a um em especial que puff. Passou. Porque há luzes e sorrisos em todos os lados, mas só penso em você, no seu aniversário, no ano em que você disse que ao menos em uma data especial gostaria de estar comigo. Mas passa. Tudo. Época legal essa, você dizia. De as pessoas serem simpáticas, quererem melhorar. Eu quero. Por isso – juro – é a última carta. Uma tentativa desesperada, nada de mais se formos pensar nas caixas (de correio, de e-mail, torácica) lotadas.

Ensaiei despedidas, mas sabe como é: natal mexe com os canais lacrimais, só por ser. E sendo, ano após ano, lava. Ainda mais sem você aqui. Ano após ano. Lava. Uma última carta, por hora. Não prometo melhoras – você sabe como são os vícios. E crise de abstinência combina perfeitamente como rabanadas e peru. E com presentes que não são aquele CD que curtimos juntos, ou o livro que tem tudo a ver com a gente. Não prometo melhoras, mas tento. E tentar não é tudo que faço? Desde que você se foi. Ano após ano, tentativas frustradas de me acabar, preencher de lama, nada, sei lá. Sinto saudades. Mais no natal, e nessas quaisquer épocas especiais.

Às vezes me distraio com as luzes. Tantas cores. Esqueço-me que dói – são segundos. Parece que é o suficiente para você apagar a memória de mim. De presente, então, mais uma vez eu me dou – de um jeito que não deveria. Faço-me presente sem os fragmentos vagos do orgulho que um dia foi tudo. Sinto-me nada. Um tapetinho, uma outra coisa.

De qualquer modo, me liga em outubro. Espero sempre, com a paciência de um monge tibetano que nem sequer comemora o natal. Mas me encerro; me canso nesses fins de anos e de fases banais da vida. Estes momentos vazios e eternos. Repito-me, sei. Só que agora é como um tchau. É como se um círculo fosse se fechando no final do desenho animado. Eu diria uma comédia trágica, se não fosse tão lugar comum. That’s all, folks.

ps. Um presente para mim: eu queria que você também sentisse.





1 12 2009

Levo tudo ao extremo e me juro: de hoje esse azedume no hálito carne não passa; ponho um fim com cereja no topo. Mas o Martini fica azedo e continuo com essa vida sem azeitona nem palito. Só medo de que você não volte nunca. E eu juro que sei que nunca. Em dias assim, sem alhos nem caralhos, levo tudo ao extremo: essa dor aguda de saudade afiada, drogada, vermelha. E me juro: ponho um fim.





30 11 2009

Não é justo, porque fui eu quem te deixou palavras escondidas no bolso do casaco pela primeira vez – há tanto tempo encontrado. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo, em dias assim). Não é certo, porque sou eu que espero, antes de fechar os olhos, que o dia seguinte seja diferente – que haja misticismo, magia, surpresa, você. E nunca há. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo, em dias assim). Por isso, não é apropriado que eu te siga em todos os cantos e quinas e muros e olhos bocas cabelos coisas. É doentio. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo em dias assim). Não é correto que eu passe o resto destes dias amargos pagando pelo pecado de ser jovem burra insegura. Não é justo, porque a gente cresce. E cresço tanto que envelheço e morro. (Eu sempre acho que vou morrer;

e posso mesmo).

Será que tu sentes uma saudade culpa?





20 11 2009

Já não sei se sinto – às vezes só espero. E nesse esperar canso. Já não sei se penso ou vivo. Descanso. E me lembro, hora em hora, de você. Da gente. Enquanto isso: escrevo. Mas escrevo na cabeça e depois: esqueço. Os fios se cruzam, se prendem. Amarro você em mim – sem querer? Já não sei se quero. Espero. Quando mesmo que você disse que viria? Não disse. Nem é. Quantas manhãs e tardes e dias cabem em mim pequena? Evito crescer. Prometi que me casaria aos quarenta. Evito prometer. Espero.





Obituário

9 11 2009

Morreu na madrugada de hoje a guapeca Tisbe Maria. Entre seus maiores prazeres, pão com leite no café da manhã; no almoço, carne bem picadinha com arroz e molho e, no restante do dia, ração e o que mais seus donos a servissem. Com seus breves sete meses de vida – três deles passados na ONG Viva Bicho, sua maior alegria era passar as madrugadas no sofá com sua mamãe, enrolada no cobertor verde e assistindo a episódios de seriados norte-americanos ou lendo os clássicos da literatura mundial (Os sofrimentos do jovem Werther era o seu preferido). Dona de um rebolado inconfundível, atendia pelos nomes de Tisbe, Ibis, Neném, Nenenzinho, Bebê, Xibius e Menina – bastava dizê-los com carinho ou com alguma comida em mãos. Puríssima vira-lata com uma orelha abaixada e outra de pé, gastava suas manhãs dormindo e suas tardes caçando pássaros, ratos e formigas. Matou tantos quanto pôde, até que um pequeno vírus a matou. Deixa saudades no seu lar adotivo, principalmente na mamãe, que ainda chora sua perda.

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relendo vinícius nos dias de pós-outubro

4 11 2009

Foi só muito amor
Muito amor demais
Foi tanta a paixão
Que o meu coração, amor
Nem soube mais
Inventei a dor
E como ela nos doeu

Ah, que solidão buscar perdão
No corpo teu

(Vinícius de Moraes)





um estar lá

3 11 2009

Ontem eu cansei. Foi tão de repente, amor. Cansei, só assim. Daí me veio uma ideia de que você também é cansável. Cansado. E daí me veio uma esperança infantil de que não é desamor. É só cansaço. Umas férias do sentir, nada de mais. Not a big deal. Faz sentido, não? Daí eu pensei que depois de uma tigela de açaí com guaraná, uma boa noite de sono e um novo alguém, só por costume, você pode me ligar. E pode mesmo ser a qualquer hora, porque ontem eu cansei, mas eu me canso e me descanso rápido assim. Um estalar.





30 10 2009

Tenho vários pedacinhos de nada espalhados pela mesa. Às vezes embaralho tudo e sorteio algum pra doer. Não ter nada dói. E, também, nem sei contar histórias. Só sentir saudade do ar. É que não ter nada sufoca.





talvez

28 10 2009

O pó de arroz de minha avó cheirava doce. Era um desses cheiros doces que a gente diz que é de flor, mas não pode ser porque flor de verdade cheira azeda. Hoje eu me lembrei de você. A saudade ficou concreta como o travesseiro que agarro quando acordo sozinha. Como um balão que carrego comigo todos os dias de vida e de chuva depois que você não veio. Não diz, está bem? Não diz nada que piore tudo em mim. Não diz que não. Nem diz que.





23 10 2009

“às vezes não compreendo como um outro possa amá-la, ouse amá-la, pois só eu a amo tão profundamente, tão completamente, e nada mais conheço, nada mais sei, nada mais tenho, senão ela.”
(dos sofrimentos do jovem werther)