Já não sei se sinto – às vezes só espero. E nesse esperar canso. Já não sei se penso ou vivo. Descanso. E me lembro, hora em hora, de você. Da gente. Enquanto isso: escrevo. Mas escrevo na cabeça e depois: esqueço. Os fios se cruzam, se prendem. Amarro você em mim – sem querer? Já não sei se quero. Espero. Quando mesmo que você disse que viria? Não disse. Nem é. Quantas manhãs e tardes e dias cabem em mim pequena? Evito crescer. Prometi que me casaria aos quarenta. Evito prometer. Espero.
Obituário
9 11 2009Morreu na madrugada de hoje a guapeca Tisbe Maria. Entre seus maiores prazeres, pão com leite no café da manhã; no almoço, carne bem picadinha com arroz e molho e, no restante do dia, ração e o que mais seus donos a servissem. Com seus breves sete meses de vida – três deles passados na ONG Viva Bicho, sua maior alegria era passar as madrugadas no sofá com sua mamãe, enrolada no cobertor verde e assistindo a episódios de seriados norte-americanos ou lendo os clássicos da literatura mundial (Os sofrimentos do jovem Werther era o seu preferido). Dona de um rebolado inconfundível, atendia pelos nomes de Tisbe, Ibis, Neném, Nenenzinho, Bebê, Xibius e Menina – bastava dizê-los com carinho ou com alguma comida em mãos. Puríssima vira-lata com uma orelha abaixada e outra de pé, gastava suas manhãs dormindo e suas tardes caçando pássaros, ratos e formigas. Matou tantos quanto pôde, até que um pequeno vírus a matou. Deixa saudades no seu lar adotivo, principalmente na mamãe, que ainda chora sua perda.

Comentários : 1 Comentário »
Categorias : Sem-categoria
relendo vinícius nos dias de pós-outubro
4 11 2009Foi só muito amor
Muito amor demais
Foi tanta a paixão
Que o meu coração, amor
Nem soube mais
Inventei a dor
E como ela nos doeu
Ah, que solidão buscar perdão
No corpo teu
…
(Vinícius de Moraes)
Comentários : Deixar um comentário »
Categorias : Sem-categoria
um estar lá
3 11 2009Ontem eu cansei. Foi tão de repente, amor. Cansei, só assim. Daí me veio uma ideia de que você também é cansável. Cansado. E daí me veio uma esperança infantil de que não é desamor. É só cansaço. Umas férias do sentir, nada de mais. Not a big deal. Faz sentido, não? Daí eu pensei que depois de uma tigela de açaí com guaraná, uma boa noite de sono e um novo alguém, só por costume, você pode me ligar. E pode mesmo ser a qualquer hora, porque ontem eu cansei, mas eu me canso e me descanso rápido assim. Um estalar.
Comentários : Deixar um comentário »
Tags: volta
Categorias : Sem-categoria
30 10 2009
Tenho vários pedacinhos de nada espalhados pela mesa. Às vezes embaralho tudo e sorteio algum pra doer. Não ter nada dói. E, também, nem sei contar histórias. Só sentir saudade do ar. É que não ter nada sufoca.
Comentários : Deixar um comentário »
Categorias : Sem-categoria
talvez
28 10 2009O pó de arroz de minha avó cheirava doce. Era um desses cheiros doces que a gente diz que é de flor, mas não pode ser porque flor de verdade cheira azeda. Hoje eu me lembrei de você. A saudade ficou concreta como o travesseiro que agarro quando acordo sozinha. Como um balão que carrego comigo todos os dias de vida e de chuva depois que você não veio. Não diz, está bem? Não diz nada que piore tudo em mim. Não diz que não. Nem diz que.
Comentários : Deixar um comentário »
Tags: volta
Categorias : Sem-categoria
23 10 2009
“às vezes não compreendo como um outro possa amá-la, ouse amá-la, pois só eu a amo tão profundamente, tão completamente, e nada mais conheço, nada mais sei, nada mais tenho, senão ela.”
(dos sofrimentos do jovem werther)
Comentários : Deixar um comentário »
Tags: citações
Categorias : Sem-categoria
Uma tal saudade sem vontade
1 10 2009Às vezes ele pensa em me ligar de madrugada. Sei, porque acordo no meio do sono sentindo. Mas ele nunca tem coragem. Não é culpa nossa o mundo girar rápido demais. Ontem mesmo, fiquei acordada até as quatro. Tenho certeza que ele pensava em mim. Desde o começo da gente, a insônia sempre foi sinal. Mais do que o hábito involuntário de completarmos as frases um do outro. Acontece que agora eu estou longe, ele está acompanhado e essa vontade de ligar ou mandar cartas ou abraçar é só fantasia, sem pretensões. Mas ontem à noite foi mais forte, ele chegou a pegar o telefone na mão, chegou a discar os primeiros números. Ficou horas repetindo o gesto vazio de rememorar minha voz, fingir um diálogo. Não teve coragem, eu senti. Senti tudo. Ontem à noite ele me doeu mais do que nunca. E já faz anos que a gente não se fala.
Well, me, these days
I just miss you – It’s the nights that I go insane
Unless you’re coming back
For me, that’s one thing I know that won’t change
It’s hard, so hard – It’s tearing out my heart
It’s hard letting you go
Comentários : Deixar um comentário »
Categorias : Sem-categoria
já não consigo não pensar
29 09 2009Essa beira de sacada já não é outra coisa senão um nó. No peito, nos dedos, no jeito. Esse fim de tarde de todo dia é nada, um espaço em branco. Uma espera sem nome. Uma saudade de você.
Shiii!
Comentários : Deixar um comentário »
Categorias : Sem-categoria
Dorota dondoca e o filhote do Zé
27 09 2009Quando a Dorota engravidou foi uma alegria só. E também uma preocupação danada. Na família do Dr. Zé era assim: o primeiro filho é macho. Tem que ser. E já nasce com bigode. Quanto mais forte e extravagante a cor do bigode, mais chance de o moleque ser alguém. O pai do José nasceu com bigode salmão, que é quase um rosa bem clarinho. Acabou entocado no sertão cheio de filho e fome. Já o José, nasceu de bigode azul: virou doutor, um orgulho só. O pai da Dorota era careca desde sempre (nem um pelinho solitário lá onde o sol não bate o velho tinha), mas ela evitava tocar no assunto para não assustar o marido.
Quando a barriga crescida sacudiu de dor, José mandou Dorota agüentar mais um pouco.
- É nas dor do parto que os bigode cresce.
Dorota agüentou tanto que não agüentou mais e, sem tempo de enfiar a mulher no carro, José fez o parto ele mesmo em casa. Melhor assim, já que todos os homens machos da família tinham nascido no barraco. Zezinho Júnior veio ao mundo de bigode roxo, um luxo. Mas a cabeça tão redondinha. Dorota achou lindo esse trem de ter filho e até disfarçou a decepção de quando contou as dez unhinhas perfeitas no pé da criança lambuzada. Mesmo assim, lindo. Nem reclamou do bigode pinicando no mamar.
Depois de barbear o filho (pra não assustar as visitas), Dr. José ainda arriscou um tapa orgulhoso na cabeça do menino.
- Esse aqui vai longe!
Dorota não gostou, mas deixou quieto. Tão redondinha… Vai que o povo começa a desconfiar que o Juninho não é filho do Zé.
Comentários : Deixar um comentário »
Categorias : Sem-categoria
Comentários recentes