mad girl’s love song – sylvia plath

18 01 2012

I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you’d return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)

———

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)





ainda que

16 12 2011

Eu te amaria ainda que tu não existisses.

Sem jamais tê-lo conhecido, eu ousaria.

Amaria ainda que distante

E ainda que breve.

Porque basta ao amor a fantasia

E à ausência, qualquer ilusão se serve.

Eu te amaria de certo,

Mesmo que por toda uma vida ausente.

Porque por toda uma vida eu te amaria:

Ainda que deserto.

Ainda que doente.





Querido você:

13 12 2011

Não estava nos meus planos tentar. Há muito tempo decidi deixar a vida acontecer vagarosa enquanto espreguiço o movimento do nada. Desde que você não veio aprendi a não esperar –o tédio morno se transformou na manta leve com que cobri todos os aspectos da minha vida. Tudo mesmo. E eu superei você à exaustão. Mas então, como quem quer o nada, a vida Lolita tomando sol no gramado ao fundo da minha casa me ofereceu possibilidades. Por que não? E eu tentei. E mesmo que eu estivesse ciente das chances ínfimas de algo funcionar, eu ousei. Acontece que eu não estava preparada para a frustração que veio quando não deu certo. E o último ano inteiro invadiu com força a minha caixa torácica. Um sufoco. Porque no último ano inteiro quase nada deu certo. As pessoas que se importam juram que um dia tudo muda, que devo confiar e que – na hora certa – acontece. No entanto, é uma repetição eterna do nada que se transformou minha sala desde aquela noite em que você se levantou do sofá e foi. Você lembra? E o que eu faço sem a pessoa que mais acreditou na minha suposta intensidade? O que eu faço comigo e com meu diploma universitário baldio? Com essa vontade de desistir que toma conta de tudo e então eu me espreguiço e deixo a vida acontecer, vagarosa, como que coberta por uma manta morna 85% tédio, 15% poliéster.





good feeling, won’t you stay with me just a little longer?

17 09 2011

Eu comprei um tênis novo que não combina com nenhuma das minhas roupas. Não é um tênis feio, só ordinariamente comum. Minhas roupas também não são extraordinárias nem inusitadas. São apenas coisas de uma normalidade que não se encaixa. Não sei por que comprei o tênis. Talvez porque estivesse na promoção ou talvez seja uma metáfora para o modo como tenho me sentido em relação à vida. É como se eu não coubesse nela. Não custo uma pechincha, mas – negociando bem – não saio cara. Também não sou bizarra ou cool, daquele tipo de coisa que mesmo não combinando, a gente diz que tem personalidade. Nada horrível. Nada maravilhoso. O tipo que você espera que se misture na multidão e suma. No entanto, não encaixa. Eu sou o meu tênis. Eu me sinto o meu tênis. E aí eu o calço todas as manhãs com uma calça jeans básica e uma camiseta comum. Mas não combina. Eu me sinto tão cansada e penso: mais um dia, Deus. E insisto em usá-lo como um lembrete de que não deveria ser assim. Ele deveria ser um tênis legal, colorido e jovem; ou então, um tênis elegante, sofisticado. Até mesmo ecológico, feito de cânhamo. Uma chuteira. Deveria ser qualquer outra coisa. Ou então, o tênis deveria estar em qualquer outro lugar que não fosse o meu armário.

Onde eu deveria estar?





I’m falling to pieces

15 07 2011




Se você vê-lo, diga oi

6 07 2011

De que matéria é feita a ausência? Que tipo de gás rarefeito ocupa os espaços vazios que se criam entre os corpos distantes? Como numa das salas de estar de Auschwitz, a respiração se faz mais pesada, a vontade mais densa, o desejo mais incontido. De que matéria é feita a saudade? Os minutos são eternos e nem é possível saber o que se quer, quando o cansaço se impõe – onipresente e onipotente – sobre nós, que não nos vemos. Ausência é feita de capa preta a cobrir os rostos; é sutil algoz: mata aos poucos a veleidade do amor ainda jovem.

Percebes que sinto tua falta?





carta que recebi

27 06 2011

Minha Pérola!

Talvez chamá-la de pérola possa diminuir em muito teu valor, mas como acho a pérola uma coisa maravilhosa, resolvi compará-la a você. As pérolas, ao contrário da maioria das jóias, não necessitam de lapidação ou polimento para revelarem a sua beleza. Para os romanos, a pérola era um símbolo do amor. Assim, já tenho aqui duas qualidades iguais entre você e a pérola. É isso, filha; você é muito mais que especial. Deus, quando me deu a graça de ser sua mãe, não se contentou em só me oferecer uma filha, Ele fez questão de me oferecer a melhor filha do mundo. Uma filha amiga, companheira, parceira para todas as horas. Aquela filha que por muitas vezes já foi uma mãe, conselheira e carinhosa.

Desde muito pequenina você já era assim determinada, seguindo sempre em frente, como se nada fosse capaz de impedir tua passagem. Muito inteligente, sabia que não seria fácil para uma menina ganhar pela força física, mas como já disse, não lhe faltava sabedoria, e você sempre acabava vencendo pela argumentação. Minha mãe por vezes falava: “essa menina tem uma língua muito afiada”. Eu, que sempre fui uma apreciadora da arte de saber, de ganhar pela comunicação, sempre tive orgulho de mais essa tua qualidade. Quando se diz que todos nascem com um dom especial, acredito que você foi muito feliz quando escolheu ter uma formação acadêmica na área da comunicação. Lembro de você, ainda tão criança, tendo de decidir em que deveria se inscrever na faculdade. Queria ouvir de minha boca uma resposta que você não se achava capaz de obter sozinha. Mas, novamente, pude comprovar tua capacidade.

O tempo passa tão depressa, parece ter sido tudo tão recente, mas não, você já está concluindo teu curso e eu sei o quanto você teve que ter garra e determinação para chegar até aqui e receber este diploma. Horas de verdadeiro sofrimento, correndo contra o tempo para não perder o ônibus, falta de tempo e por vezes até de dinheiro para se alimentar direito, horas acordada durante a noite para ler e escrever. Quando por fim dormia, era por pouco tempo, pois já estava na hora de trabalhar.

Filha, já te falei por muitas vezes que você é abençoada e amada. Há poucos dias ainda me dizias: “em nossa vasilha nunca falta azeite”, e isso é uma verdade. Apesar de todas as dificuldades, sempre fomos muito felizes. Por isso filha, quero que continues sempre louvando e agradecendo a Deus por seu amor enorme, que tudo providencia para os que a Ele procuram e O amam. Continue sendo essa pessoa maravilhosa e linda que você sempre foi. Continuarei pedido a Deus que tua vasilha sempre tenha óleo e em teu coração sempre tenha amor.

Parabéns, Sílvia. Que esse seja só mais um diploma entre outros que você ainda vai conquistar.

Beijos de sua Mãe.





Ajoelha e reza

3 05 2011

- A novena das rosas?

- É. Três novenas seguidas. Termina uma e já começa outra. Minha filha nem saiu mais de casa!

- Vai ver agora sossega o rabo.

A vizinha se despediu de Dona Evolina com um beijo no rosto e as duas entraram em casa. Era sabido do povo que o caminho de volta da igreja servia para comentar a vida alheia. As línguas afiadas quase sempre chicoteavam Virtuosa que, segundo as senhoras, tinha mudado tanto e agora andava toda dedicada ao marido.

- Até marmita para ele levar pra roça tá fazendo.

De fato, Dona Evolina não se continha de felicidade. Finalmente a filha parecia ter criado juízo. Talvez as coisas se resolvessem por conta própria e, se Deus quisesse, ela não precisaria se meter nessa história. Só Ele sabia o quanto doía ter que ver a filha pecando assim. Mulher não tem que ter certas vontades; essas são reservadas aos homens. Mulher precisa cuidar da casa, dos filhos e cumprir sua obrigação como esposa sempre que requisitada. E que agradecesse ao Senhor quando não o fosse! Melhor deitar na cama e dormir com os anjos. Se Virtuosa trabalhasse mais, não teria disposição para querer o que não pode nem deve. Que ao menos escutasse a mãe! Dona Evolina passara, até então, 40 anos ao lado do marido no casamento imperfeito, sim, mas muito sólido no amor de Deus.

O problema era que Virtuosa não ouvia a mãe. Não conseguia. Quando Cornélio viajou a trabalho de novo, a esposa dedicada e mãe amorosa não se conteve.      Encontravam-se à tarde, mas não eram todas as tardes e, também, não era toda semana. Uma ou duas vezes ao mês. O suficiente para acalmar o fogo dela. Quanto a ele, tinha outras espalhadas pela cidade. Ela sabia, mas não ligava. Não esperava nada dele além do pau e da vontade. Diziam que uma das filhas dela era a cara dele.

Virtuosa decidira que aquele seria seu último encontro. Avisou à mãe que visitaria Graciosa, amiga e cúmplice que já estava avisada – quantas vezes Graciosa mentira por Virtuosa? Saiu apressada antes que Dona Evolina tivesse tempo de fazer perguntas inconvenientes. O carro roxo a esperava a poucas quadras de distância em uma rua quase sempre deserta. Olhou ao redor, entrou sem nada dizer, fechou a porta atrás de si e esperou que o motor ligasse.

- Vai ser só mais essa vez. E aí deu.

Ricardão não respondeu. Sequer se importou de verdade. Há semanas vinha pensando em largar Virtuosa. Não que ele tivesse culpa: ela se oferecia. Mas não estava certo, todo mundo falando do Cornélio pelas costas. Virtuosa que tomasse jeito e virasse uma esposa decente, como a sua própria, a Primorosa, que a essas horas cuidava de manter a casa e os filhos nos trinques, do jeito que deve ser.





a ex-louca da praça

15 02 2011

Joca voltou a fumar. Não passam das oito, mas ela já chegou – cara lavada, cabelos molhados, roupas limpas e a catinga insuportável de cigarro com café e bala de hortelã. Serena, cumprimenta a todos com um sorriso leve, fala baixo. Está devidamente medicada, claro. Nada parecido com as vezes em que, usando apenas sutiã e saia surrada, atacava os jovens rapazes na Praça das Figueiras; ou buscava nas moças uma confidente que se comovesse com seus segredos mais terríveis, das épocas em que apanhava do marido e dos filhos por não ter as idéias muito bem colocadas no lugar. Mas tudo isso passou. Joca hoje desfila com o neto, que também fala baixo e está sempre com o rosto e as roupas limpas. O menino olha para a avó com o respeito próprio da relação de parentesco e isso motiva Joca a tomar as pílulas de todo dia e se vestir e trabalhar. Dos outros tempos, não tão distantes, ela guarda a lascívia – agora tímida –, percebida nos abraços demorados que oferece aos amigos homens. Sempre serena, como que em câmera lenta.





where do I go?

20 01 2011

Se tivesse que dizer do aperto, nada diria que já não fosse velho, pré-histórico, démodé. Se tivesse que imaginar um alvo de transferência da dor, desejaria ao pior amigo que morresse antes de sentir-se assim, desse antigo jeito que virou costume – ato tão involuntário quanto vomitar à lembrança dele. É bobagem não saber o que sentir, mas me julgo merecedora da incerteza. A mãe, que já não liga, jura que eu teria dado boa: não fosse esse pesar demais. Too much drama. Mas o show continua e de um jeito meio torto está tudo sempre bem.








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