Essa rua é jamais

O que eu sinto por essa rua talvez seja amor. Nem é bela, mas é a rua que vivi nessa cidade. Uma rua classe média de lixo recolhido todo dia. Tem bar, mercearia, padaria e farmácia. Tem muita sombra de muitos prédios e concreto quebrado. Tem uma praça com playground de madeira pintada com cores da infância: três balanços, um escorregador e duas gangorras. Se crianças corressem e brincassem por essa rua, nessa praça, talvez eu pudesse dizê-la bela. Mas não o fazem e não posso dizer isso apesar do amor que acredito e juro sentir por essa rua. A cidade, essa é bela. Mas eu não vivi a cidade. Só o que experimentei foi a rua. Conheci uma velha e um velho que me cumprimentam com um sorriso largo, como se soubessem de mim ou assumissem de mim, assim sem saber, uma alma semelhante. Boa tarde. Bom dia. Esfriou. Choveu muito e lavou a poeira da rua.

Essa rua é ladeira. Ladeira que subo e ladeira que deito, em posição fetal, abraçando os joelhos. Habitei por um ano essa rua e nela me esqueci categórica e definitivamente de você. Bebo a última cerveja que jamais beberei nessa rua e do bar olho a pracinha vazia de crianças e entorpecidos. Essa rua é pacífica. Um rapaz passeia com seu cachorro. Parece ter a minha idade, mas talvez seja alguns anos mais jovem porque tem, percebo, o caminhar solto e despreocupado dos estudantes. Dos protegidos. Mastiga algo que imagino ser chiclete e leva as mãos nos bolsos. O cachorro o segue sem coleira e com o rabo em riste. Às vezes se afasta do humano que o guia para comer algum capim, cheirar algum vestígio da passagem de outros cães por ali. Observo até que dobrem a esquina e sumam para sempre me fazendo pensar num amor à última vista.

Planejo passar na farmácia e comprar a última cartela de analgésico que jamais comprarei nessa rua. Boa noite. Esfriou. O frio chega muito forte aqui por causa do vento. O velho é quem me atende na farmácia. Ele me sorri tranquilo, como quem desconhece o momento imperativo do adeus. Já é ausência. Em algum dia, mas duvido, talvez eu volte a pisar nessa rua e ele já morreu. E choro a sua morte como choro a perda da vida, a minha, nessa rua sem graça, classe média, com gangorra e escorregador fantasma. Bar, mercearia, pet shop.

Na janela do meu apartamento de três quartos e sala grande, tão maior do que aquela com o retrato imenso de Jesus Cristo que foi a sala em que cresci bem cuidada e bem amada e bem polida, dessa janela de onde fumo um cigarro mentolado a paisagem que contemplo é a rua. É a janela desse agora que se esvai rápido e definitivo e dela eu digo adeus para a rua e digo adeus para quem eu fui na Capitão Romualdo de Barros: estudante, livre, maconheira, jovem.

uma ilha

Queria lhe contar que agora eu acordo cedo. Agora, eu olho pela janela e do outro lado não há um poço de concreto cinza e noite. Não. Quando eu olho pela janela, agora, vejo outras janelas cheias de pessoas que também estão acordadas e bebem de suas xícaras em roupões macios e vejo um pedaço da rua e um pedaço de mato. Os dias têm cheirado a frio e amaciante e incenso e misto-quente por aqui. E eu queria lhe contar que agora tomo café da manhã e almoço e me alimento direitinho para não ficar amarela e pálida e sozinha. Como feijão e beterraba e fígado. Também queria falar que tenho lido todos os livros e textos e escrevi quinze páginas e sonhei que você estava aqui. Então, o que eu queria mesmo dizer é que você pode vir agora porque agora está tudo bem e porque agora eu não estou mais triste nem doente nem perdida nem nada. Só saudade mesmo.

hoje

Eu te imagino agora assim, sorrindo, e penso que eu gostaria muito de ser sua amiga e lhe dizer que você – desse jeito que está ultimamente, mas também quando era triste – é o meu tipo preferido de gente. Queria ser sua amiga e lhe contar que a sua angústia era boa, porque era a angústia de quem se importa com o mundo e com os outros e com as velhinhas que cantam sem instrumento no coral da igreja. E a sua raiva era boa, porque era a raiva de quem espera o melhor das pessoas e se decepciona porque só o que as pessoas têm para nos oferecer é decepção e tristeza e amargura. Mas não as pessoas como você. Então eu queria ser sua amiga e dizer para você que a sua sensibilidade me comove porque não é egoísta e nem doce demais desse tipo que azeda. Essa sua sensibilidade, vou dizer, é o que eu mais amo em você, penso, às vezes, quando me dou conta que ela o tira da forma de teflon com buraquinhos no formato do homem-como-deve-ser. E você é você. E você não deveria ser mais ninguém, porque você – assim como é – é o meu tipo preferido de gente. Com sua fé e sua raiva e sua bondade e sua voz e sua angústia e suas mãos e o fato de que você já foi meu amigo, mas não é mais.

Antes das seis

Pensei que haveria algo de ruim em voltar para casa e encontrar as três prateleiras vazias no canto esquerdo do guarda-roupa. Nada. Em algum momento de muita alegria artificial, comida japonesa, sofá novo com estampa geométrica, se deu para encolher o espaço de você em mim. Aos poucos, você me sobrou em gavetas, cabides e pequenos círculos sem pó na estante. Até que me sumiu inteiro. E não foi ruim: gosto de rolar na cama e roçar na pele o tecido frio dos lençóis intocados, mesmo quando inverno. E ainda que inferno, há mais vinho para mim na garrafa, danoninho na geladeira. Talvez exista algo de triste descansando nos vazios da casa em que me faltam bailarinas de gesso, astronautas de lata, animais de biscuit, livros o bastante para preencher. Só que nada, eu sei agora, jamais será tão triste quanto tê-lo amado um dia.

Who’s gonna save my soul?

Eu desejo que vontade seja o mesmo que amor quando me vejo assim, fim de noite, luz artificial, pés gelados. Desejo que você pense na minha pele e no cheiro que imagina que ela tenha. Olha só: queria que você me pensasse doce. Cereja em calda. Dia desses, semana passada, vai saber, falaram-me sobre essa bobagem sem tamanho que é querer alguém. Concluí: deve ser mesmo muita bobagem. E fiquei cá a relembrar, categórica, que não o quero. Nada. Mas se é madrugada, já nem penso; o que faço é fantasiar sobre dedos ásperos na pele escorregadia e uma voz que não sei se é mesmo a sua. Hálito de menta em ouvidos, queixo, boca. É tesão, mas não apenas: vez em quando decido que quero você como quem ama. A luz artificial e a música metálica e a noite, principalmente a noite, me deixam cá a sentir saudade de uma voz magnética que me dizia de caralhos e bocetas como quem lê poesia. E que me lia poesia. Tento imaginar, olho espremido, cara de fuinha curiosa: que gosto tem você?

o que seria?

Eu tinha uma coisa importante para dizer. Algo sobre não ser frágil e o fato de nada me doer como deveria. Nada me dói. Certamente não era sobre o meu cabelo que demora meses para crescer poucos centímetros e corto tudo como se não fosse nada. E não sinto nada. Talvez fosse algo sobre você. Sobre como a sua voz me faz respirar cheiro de vento gelado com grama recém-cortada e xampu anticaspa. E sobre como eu racionalizo essa minha nossa história para não bater saudade na cara ou tapa na bunda ou chute no saco. Talvez não tivesse importância o que eu tinha para dizer. Mas era algo. Sim. Seria sobre o sono e a vontade de dormir muito e dormir para sempre que eu sinto quando penso em você? E durmo mesmo. Dias a fio. Apaguei duas semanas do meu calendário. E aí não penso em nada. Nem em como deveria ser difícil estar longe e estar sozinha e ter tantos livros para ler e tantas páginas para escrever e tantos débitos na conta bancária e tantos nuncas no focinho. Nada disso é difícil. Difícil é não lembrar. É, acho que eu tinha algo muito importante para lhe dizer. Mas o que?

Sobre o amor

O menino cutuca o interior do nariz com a ponta do indicador. Limpa na almofada da cadeira e torna a usar o mesmo dedo, desta vez no ouvido. Gira e afunda dentro da orelha, fecha os olhos, emite aquele ruído grotesco de quem coça a garganta. Não tenho asco – o que tenho é vontade de abraçar o menino. Se eu lhe amasse tanto quanto amo o menino agora, talvez ainda nos restasse uma chance. Talvez você pudesse pegar o primeiro trem da manhã e vir para cá. O amanhecer lhe traria para mim e eu sentiria de novo aquele formigar na barriga, aquele aperto no peito e uma puta vontade de chorar. Mas eu me controlo muito bem agora que sou adulta. Dei um jeito de secar as lágrimas e de amar mais as coisas que não precisam de mim. Coisas cuja existência independe de mim. Coisas que são belas porque o são e não apenas porque você partiu para longe e me deixou sozinha e triste.
No sexto andar do prédio vizinho mora um casal que assiste tevê até às seis da manhã. Eles deixam as portas e janelas abertas, usam pouca roupa e se esparramam pelo sofá. A cada quinze ou vinte minutos, talvez menos, não sei, um deles sai à sacada e fuma um cigarro. Revezam-se. Não movem os lábios e não trocam olhares. Apenas fumam e assistem tevê. Nesse seu agir automático, de olhos vazios, acabam por dividir o mesmo canal, o mesmo sofá, a mesma sacada e o mesmo maço. Todos os dias. E eu apenas observo e penso: se eu lhe amasse tanto quanto amo aquele casal, talvez eu pudesse lhe convencer a voltar para mim. E quando esse vestígio de dor aguda me encontra e me acelera as batidas por dois segundos e meio, cogito a hipótese de lhe tocar. E ameaço escrever uma carta molhada falando sobre como, apesar do resquício de dor, o meu amor por você não é suficientemente forte para remover a distância ou fazê-lo me amar de volta. Mas eu tenho muita preguiça de pensar em você agora que sou adulta. Tanta, que abandono o texto inacabado e vou dormir.