20 11 2009

Já não sei se sinto – às vezes só espero. E nesse esperar canso. Já não sei se penso ou vivo. Descanso. E me lembro, hora em hora, de você. Da gente. Enquanto isso: escrevo. Mas escrevo na cabeça e depois: esqueço. Os fios se cruzam, se prendem. Amarro você em mim – sem querer? Já não sei se quero. Espero. Quando mesmo que você disse que viria? Não disse. Nem é. Quantas manhãs e tardes e dias cabem em mim pequena? Evito crescer. Prometi que me casaria aos quarenta. Evito prometer. Espero.





Obituário

9 11 2009

Morreu na madrugada de hoje a guapeca Tisbe Maria. Entre seus maiores prazeres, pão com leite no café da manhã; no almoço, carne bem picadinha com arroz e molho e, no restante do dia, ração e o que mais seus donos a servissem. Com seus breves sete meses de vida – três deles passados na ONG Viva Bicho, sua maior alegria era passar as madrugadas no sofá com sua mamãe, enrolada no cobertor verde e assistindo a episódios de seriados norte-americanos ou lendo os clássicos da literatura mundial (Os sofrimentos do jovem Werther era o seu preferido). Dona de um rebolado inconfundível, atendia pelos nomes de Tisbe, Ibis, Neném, Nenenzinho, Bebê, Xibius e Menina – bastava dizê-los com carinho ou com alguma comida em mãos. Puríssima vira-lata com uma orelha abaixada e outra de pé, gastava suas manhãs dormindo e suas tardes caçando pássaros, ratos e formigas. Matou tantos quanto pôde, até que um pequeno vírus a matou. Deixa saudades no seu lar adotivo, principalmente na mamãe, que ainda chora sua perda.

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relendo vinícius nos dias de pós-outubro

4 11 2009

Foi só muito amor
Muito amor demais
Foi tanta a paixão
Que o meu coração, amor
Nem soube mais
Inventei a dor
E como ela nos doeu

Ah, que solidão buscar perdão
No corpo teu

(Vinícius de Moraes)





um estar lá

3 11 2009

Ontem eu cansei. Foi tão de repente, amor. Cansei, só assim. Daí me veio uma ideia de que você também é cansável. Cansado. E daí me veio uma esperança infantil de que não é desamor. É só cansaço. Umas férias do sentir, nada de mais. Not a big deal. Faz sentido, não? Daí eu pensei que depois de uma tigela de açaí com guaraná, uma boa noite de sono e um novo alguém, só por costume, você pode me ligar. E pode mesmo ser a qualquer hora, porque ontem eu cansei, mas eu me canso e me descanso rápido assim. Um estalar.





30 10 2009

Tenho vários pedacinhos de nada espalhados pela mesa. Às vezes embaralho tudo e sorteio algum pra doer. Não ter nada dói. E, também, nem sei contar histórias. Só sentir saudade do ar. É que não ter nada sufoca.





talvez

28 10 2009

O pó de arroz de minha avó cheirava doce. Era um desses cheiros doces que a gente diz que é de flor, mas não pode ser porque flor de verdade cheira azeda. Hoje eu me lembrei de você. A saudade ficou concreta como o travesseiro que agarro quando acordo sozinha. Como um balão que carrego comigo todos os dias de vida e de chuva depois que você não veio. Não diz, está bem? Não diz nada que piore tudo em mim. Não diz que não. Nem diz que.





23 10 2009

“às vezes não compreendo como um outro possa amá-la, ouse amá-la, pois só eu a amo tão profundamente, tão completamente, e nada mais conheço, nada mais sei, nada mais tenho, senão ela.”
(dos sofrimentos do jovem werther)





Uma tal saudade sem vontade

1 10 2009

Às vezes ele pensa em me ligar de madrugada. Sei, porque acordo no meio do sono sentindo. Mas ele nunca tem coragem. Não é culpa nossa o mundo girar rápido demais. Ontem mesmo, fiquei acordada até as quatro. Tenho certeza que ele pensava em mim. Desde o começo da gente, a insônia sempre foi sinal. Mais do que o hábito involuntário de completarmos as frases um do outro. Acontece que agora eu estou longe, ele está acompanhado e essa vontade de ligar ou mandar cartas ou abraçar é só fantasia, sem pretensões. Mas ontem à noite foi mais forte, ele chegou a pegar o telefone na mão, chegou a discar os primeiros números. Ficou horas repetindo o gesto vazio de rememorar minha voz, fingir um diálogo. Não teve coragem, eu senti. Senti tudo. Ontem à noite ele me doeu mais do que nunca. E já faz anos que a gente não se fala.

 

Well, me, these days
I just miss you – It’s the nights that I go insane
Unless you’re coming back
For me, that’s one thing I know that won’t change
 
It’s hard, so hard – It’s tearing out my heart
It’s hard letting you go





já não consigo não pensar

29 09 2009

Essa beira de sacada já não é outra coisa senão um nó. No peito, nos dedos, no jeito. Esse fim de tarde de todo dia é nada, um espaço em branco. Uma espera sem nome. Uma saudade de você.

Shiii!





Dorota dondoca e o filhote do Zé

27 09 2009

Quando a Dorota engravidou foi uma alegria só. E também uma preocupação danada. Na família do Dr. Zé era assim: o primeiro filho é macho. Tem que ser. E já nasce com bigode. Quanto mais forte e extravagante a cor do bigode, mais chance de o moleque ser alguém. O pai do José nasceu com bigode salmão, que é quase um rosa bem clarinho. Acabou entocado no sertão cheio de filho e fome. Já o José, nasceu de bigode azul: virou doutor, um orgulho só. O pai da Dorota era careca desde sempre (nem um pelinho solitário lá onde o sol não bate o velho tinha), mas ela evitava tocar no assunto para não assustar o marido.

Quando a barriga crescida sacudiu de dor, José mandou Dorota agüentar mais um pouco.

- É nas dor do parto que os bigode cresce.

Dorota agüentou tanto que não agüentou mais e, sem tempo de enfiar a mulher no carro, José fez o parto ele mesmo em casa. Melhor assim, já que todos os homens machos da família tinham nascido no barraco. Zezinho Júnior veio ao mundo de bigode roxo, um luxo. Mas a cabeça tão redondinha. Dorota achou lindo esse trem de ter filho e até disfarçou a decepção de quando contou as dez unhinhas perfeitas no pé da criança lambuzada. Mesmo assim, lindo. Nem reclamou do bigode pinicando no mamar.

Depois de barbear o filho (pra não assustar as visitas), Dr. José ainda arriscou um tapa orgulhoso na cabeça do menino.

- Esse aqui vai longe!

Dorota não gostou, mas deixou quieto. Tão redondinha… Vai que o povo começa a desconfiar que o Juninho não é filho do Zé.