- A novena das rosas?
- É. Três novenas seguidas. Termina uma e já começa outra. Minha filha nem saiu mais de casa!
- Vai ver agora sossega o rabo.
A vizinha se despediu de Dona Evolina com um beijo no rosto e as duas entraram em casa. Era sabido do povo que o caminho de volta da igreja servia para comentar a vida alheia. As línguas afiadas quase sempre chicoteavam Virtuosa que, segundo as senhoras, tinha mudado tanto e agora andava toda dedicada ao marido.
- Até marmita para ele levar pra roça tá fazendo.
De fato, Dona Evolina não se continha de felicidade. Finalmente a filha parecia ter criado juízo. Talvez as coisas se resolvessem por conta própria e, se Deus quisesse, ela não precisaria se meter nessa história. Só Ele sabia o quanto doía ter que ver a filha pecando assim. Mulher não tem que ter certas vontades; essas são reservadas aos homens. Mulher precisa cuidar da casa, dos filhos e cumprir sua obrigação como esposa sempre que requisitada. E que agradecesse ao Senhor quando não o fosse! Melhor deitar na cama e dormir com os anjos. Se Virtuosa trabalhasse mais, não teria disposição para querer o que não pode nem deve. Que ao menos escutasse a mãe! Dona Evolina passara, até então, 40 anos ao lado do marido no casamento imperfeito, sim, mas muito sólido no amor de Deus.
O problema era que Virtuosa não ouvia a mãe. Não conseguia. Quando Cornélio viajou a trabalho de novo, a esposa dedicada e mãe amorosa não se conteve. Encontravam-se à tarde, mas não eram todas as tardes e, também, não era toda semana. Uma ou duas vezes ao mês. O suficiente para acalmar o fogo dela. Quanto a ele, tinha outras espalhadas pela cidade. Ela sabia, mas não ligava. Não esperava nada dele além do pau e da vontade. Diziam que uma das filhas dela era a cara dele.
Virtuosa decidira que aquele seria seu último encontro. Avisou à mãe que visitaria Graciosa, amiga e cúmplice que já estava avisada – quantas vezes Graciosa mentira por Virtuosa? Saiu apressada antes que Dona Evolina tivesse tempo de fazer perguntas inconvenientes. O carro roxo a esperava a poucas quadras de distância em uma rua quase sempre deserta. Olhou ao redor, entrou sem nada dizer, fechou a porta atrás de si e esperou que o motor ligasse.
- Vai ser só mais essa vez. E aí deu.
Ricardão não respondeu. Sequer se importou de verdade. Há semanas vinha pensando em largar Virtuosa. Não que ele tivesse culpa: ela se oferecia. Mas não estava certo, todo mundo falando do Cornélio pelas costas. Virtuosa que tomasse jeito e virasse uma esposa decente, como a sua própria, a Primorosa, que a essas horas cuidava de manter a casa e os filhos nos trinques, do jeito que deve ser.
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