Eu comprei um tênis novo que não combina com nenhuma das minhas roupas. Não é um tênis feio, só ordinariamente comum. Minhas roupas também não são extraordinárias nem inusitadas. São apenas coisas de uma normalidade que não se encaixa. Não sei por que comprei o tênis. Talvez porque estivesse na promoção ou talvez seja uma metáfora para o modo como tenho me sentido em relação à vida. É como se eu não coubesse nela. Não custo uma pechincha, mas – negociando bem – não saio cara. Também não sou bizarra ou cool, daquele tipo de coisa que mesmo não combinando, a gente diz que tem personalidade. Nada horrível. Nada maravilhoso. O tipo que você espera que se misture na multidão e suma. No entanto, não encaixa. Eu sou o meu tênis. Eu me sinto o meu tênis. E aí eu o calço todas as manhãs com uma calça jeans básica e uma camiseta comum. Mas não combina. Eu me sinto tão cansada e penso: mais um dia, Deus. E insisto em usá-lo como um lembrete de que não deveria ser assim. Ele deveria ser um tênis legal, colorido e jovem; ou então, um tênis elegante, sofisticado. Até mesmo ecológico, feito de cânhamo. Uma chuteira. Deveria ser qualquer outra coisa. Ou então, o tênis deveria estar em qualquer outro lugar que não fosse o meu armário.

Onde eu deveria estar?