Ao voltar, provavelmente pela última vez, viu as crianças soltando pipa no terreno baldio perto da casa onde ela costumava morar e percebeu que pouco mudara. As tardes de maio mantiveram o brilho amarelo de um sol gelado e o vento ainda tinha a mesma essência agridoce: uma mistura de grama recém-cortada, terra vermelha, mijo seco e shampoo – o dela. Cada lugar tem um cheiro, pensou. Li certa vez que nada toca tanto a superfície da memória quanto os odores reconhecidos. Desejou não ter voltado, apesar das circunstâncias. É estranho notar as crianças crescidas, velhos mortos, casas vazias. Talvez tenha ocorrido a ele, ainda que por breves frações de segundo apenas, o esboço de algum arrependimento. Jamais ter partido. Voltar atrás e ver velhos vivos, casas cheias, crianças ainda inocentes. Nada disso aqui é meu; essas memórias não são minhas, essa história nunca me pertenceu. Em poucas intermináveis horas cumpriu seus deveres, recebeu condolências com cortesia, assinou uma procuração para que tratassem da herança por ele e partiu como da primeira vez: categórico no desejo de não voltar. Nada mais me liga a essa terra, essas crianças não são minhas, meus mortos não retornarão à vida, o perfume dela já não me dói.
baby, what’s the story?
abril 27, 2012
Sem-categoria As cartas que eu não mando Deixe um comentário
Se você voltasse ou se você escrevesse os últimos versos daquele poema ou enviasse uma carta ou bilhete dizendo que se você voltasse ou se você mandasse um pombo-correio eletrônico mensagem de texto ou se você voltasse ou se você ligasse e deixasse um recado com algum amigo em comum prometendo que se você voltasse ou se você dissesse que um dia quem sabe talvez se você voltasse ou se você viesse apenas visitar matar a saudade fingir que importaria se você voltasse ou se você chorasse e se você falasse que se sente assim desse mesmo jeito que eu me sinto quando penso que se você voltasse talvez quem sabe um dia as coisas poderiam ser diferentes se você voltasse ou se você me amasse ou se você mentisse ou se você voltasse.
You can’t always get what you want
abril 5, 2012
Sem-categoria As cartas que eu não mando, dos dias de lucidez Deixe um comentário
Hoje eu decidi ter fé. Deixar que as coisas aconteçam no tempo devido e permitir que um poder superior decida por mim. Escolhi pensar que tudo tem a sua hora e que, cedo ou tarde, vai dar certo: o emprego, o sonho, eu e você. E se não for, então será porque não era para ser. E não era para haver esse abismo entre a gente, mas a gente não tem escolha. E a gente vive essas horas corridas procrastinando uma decisão que não é nossa. Nunca foi. É por isso que hoje eu decidi ter fé e esperar o melhor, apesar de toda essa distância, todo esse deserto, esse silêncio que se espalha ligeiro sob a superfície dos meus dias sem você. O fato é que não dá para se ter sempre o se que quer. Mas se você tentar, às vezes você percebe que tem exatamente o que precisa.
a cura
março 13, 2012
Sem-categoria As cartas que eu não mando, Dos dias de cansaço, volta Deixe um comentário
Febre, dor muscular, náuseas e saudades de você. A verdade é que há tempos perdi a habilidade de distinguir o que é falta sua e o que é mera vontade de vomitar, intoxicação alimentar, gravidez e tal. Nada que um chá, um livro e uma cama não resolvam. Alguma distração sempre me cura desse mal que não o ter nas minhas vistas me faz e eu nunca preciso de você. Mas se eu estiver mesmo às beiras do abismo da morte, então volta, então vem. Porque eu finjo que não preciso, mas meu corpo grita.
ainda que
dezembro 16, 2011
Sem-categoria As cartas que eu não mando, poesia 2 Comentários
Eu te amaria ainda que tu não existisses.
Sem jamais tê-lo conhecido, eu ousaria.
Amaria ainda que distante
E ainda que breve.
Porque basta ao amor a fantasia
E à ausência, qualquer ilusão se serve.
Eu te amaria de certo,
Mesmo que por toda uma vida ausente.
Porque por toda uma vida eu te amaria:
Ainda que deserto.
Ainda que doente.
Se você vê-lo, diga oi
julho 6, 2011
Sem-categoria As cartas que eu não mando, Dos dias de cansaço, volta Deixe um comentário
De que matéria é feita a ausência? Que tipo de gás rarefeito ocupa os espaços vazios que se criam entre os corpos distantes? Como numa das salas de estar de Auschwitz, a respiração se faz mais pesada, a vontade mais densa, o desejo mais incontido. De que matéria é feita a saudade? Os minutos são eternos e nem é possível saber o que se quer, quando o cansaço se impõe – onipresente e onipotente – sobre nós, que não nos vemos. Ausência é feita de capa preta a cobrir os rostos; é sutil algoz: mata aos poucos a veleidade do amor ainda jovem.
Percebes que sinto tua falta?
where do I go?
janeiro 20, 2011
Sem-categoria As cartas que eu não mando, Dos dias de cansaço Deixe um comentário
Se tivesse que dizer do aperto, nada diria que já não fosse velho, pré-histórico, démodé. Se tivesse que imaginar um alvo de transferência da dor, desejaria ao pior amigo que morresse antes de sentir-se assim, desse antigo jeito que virou costume – ato tão involuntário quanto vomitar à lembrança dele. É bobagem não saber o que sentir, mas me julgo merecedora da incerteza. A mãe, que já não liga, jura que eu teria dado boa: não fosse esse pesar demais. Too much drama. Mas o show continua e de um jeito meio torto está tudo sempre bem.
El tango de Roxanne
agosto 31, 2010
Sem-categoria As cartas que eu não mando 2 Comentários
Benzinho, a estupidez tem morado em mim ultimamente. Não sou mais tão boa quanto em outro tempo perdido. Fiquei boba, vulgar. Ando na noite, boêmia, atrás de um blues amargo e umas doses de solidão. Danço insanamente com o primeiro que se oferece. Canto nossas músicas aos berros e entre lágrimas repito os vários clichês que aprendi nestes dias saudosos. Grito, finjo ataques epilépticos. Ninguém nota, não, benzinho. Can you see me? I think about you. Can you hear me? Embriago-me com o absinto mais forte e, entre as fadas verdes, ensaio o tango. Vestido vermelho a mostrar as pernas bambas, inseguras sob a cinta liga e as meias-sete-oitavos-rasgadas. O carmim, a maquiagem pesada na tentativa vã de esconder as feições do desespero, iludir boêmios como eu. A noite me possui. Não me lembro da cor do sol, mas a escuridão é bem pior que esta luz cinza. Estou num bar, benzinho, escondida entre nuvens de cigarros e sonhos despedaçados. Escrevo porque toca nossa valsa na vitrola. Dança comigo mais essa canção? Depois morro em seus braços de tuberculose ou qualquer outro mal da vida boêmia. Você se sentiria culpado e eu finalmente estaria em paz. Dança comigo? Depois me abandona de novo, me troca por outro amor. E eu me descontrolo, ardendo em ciúmes, enquanto toca El tango de Roxanne. Why does my heart cry?
.
.
“Te he dejado
Me dejastes
En el alma se me fue
Se me fue el corazón
Ya no puedo mas vivir”
I like the heat but I don’t want to get burned
agosto 23, 2010
Sem-categoria As cartas que eu não mando Deixe um comentário
Decidi com toda a força de vontade do meu pé esquerdo sair dessa nuvem azul em que me afundei depois que você não veio. Penso na sutileza de combater apenas sintomas desse mal de autopiedade: saio da cama pela manhã – há séculos não te escrevia pela manhã. lembra? – e tomo uma atitude em relação à vida que não seja sentar no meio fio reclamando sobre como dói, fisicamente, acordar. Todos os dias de novo e de novo e para quê? Mas crio forças, trato a gastrite com omeprazol e calma. É possível controlar a ansiedade. E o tédio? Crio meios. Durmo cedo, me alimento direitinho como mamãe insiste e vovó insiste e papai manda menina come porque senão você fica amarela e magra e sozinha e ninguém quer ser sozinho e vovô, para alegrar a menina, compra chocolate na um e noventa e nove e diz que a gente se acostuma, a tudo a gente se acostuma, e nem é tão ruim assim querer e não ter, não poder nem pensar. Sempre tem coisa pior com alguém ali na esquina. Tem sempre alguém pior.
Dizem que eu não devia mais querer você
agosto 5, 2010
Sem-categoria As cartas que eu não mando, Dos dias de cansaço, dos dias de lucidez, volta 1 Comentário
Quando eu repeti mentalmente cada uma destas histórias curtas da felicidade pela milionésima segunda vez me dei conta de que não eram sobre mim. De que maneira seriam? Mesmo contando as horas perdidas na sala vip, tevê ligada na globo news, internet sem fio, sem volta, eternamente à espera. Não tinha como. Ainda hoje, cada sorriso é tão cuspido e esganado que o conceito de felicidade faz deboche. Lembrei das irmãs carmelitas e quis voltar no tempo – o bastante para a clausura, não perseguir seus rastros, voto de silêncio, não agarrar sua lembrança aos berros, poupar a goela, ter alguém que me faça o supermercado, preencher o tédio com as orações matinais e vespertinas e noturnas e da madrugada. E quando o cansaço se impusesse, dia cheio, afazeres, louvor, não haveria mão que sustentasse a mais leve pena. E seria, por Deus!, seria o fim do amor (que tive). Mas eu te quero tanto
que dói.
Comentários recentes