Ainda falo da saudade

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Ele poderia fazer como nos filmes: pegar o carro na alta madrugada e dirigir até aqui; atirar pedras na minha janela; me dar um beijo de perder a cabeça e o fôlego. Mas ele não vem, nunca vem. Ele promete, mas não vem. Será que se perdeu – não se recorda mais de mim? Eu me lembro mês a mês do que vivemos naquela época, apesar de ter esquecido anos inteiros da minha vida. Mas a mim também falta a bravura.

Todas as quartas e quintas-feiras

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Eu gosto pensá-lo, quando desço do ônibus amarelo. Gosto de imaginar que ele já está lá, sentado em frente à biblioteca, me esperando. Caminho devagar para manter o suspense. E se ele me faltar? Gosto de ver o seu borrão ao longe, e aos poucos ir percebendo seus detalhes – a proximidade. Até os desconhecidos, que transitam entre nós enquanto eu não chego, são objetos do meu gostar. E o vento que bagunça os meus cabelos segundos antes d’ele me notar. Mas o que eu mais gosto é o sorriso largo que ele solta quando me vê. É o meu preferido, ainda que me doa.

Sobre a chegada do frio

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É mais fácil esquentar meu corpo no teu, sem precisar falar. Essa linguagem de sinais é tão mais bela, mais calma, mais nossa. E eu posso calar tudo com um olhar; teu passado e meus pecados. Um adormecimento, a efêmera redenção. Por isso que o frio nos faz tão bem. Evita-nos o pensar. Senti falta dessa serenidade fingida, dessa paz forçada, de ti. Tal como és. É tão errado assim brincar de ser feliz?

Deve haver um porto

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É inesperado, eu diria até inapropriado, eu voltar a te escrever. Mas, considerando o que eu sei de mim – e tu não o sabes –, dá para acrescentar um inevitável a esta lista. Inesperadamente, inapropriadamente, porém, inevitavelmente volto a me endereçar a ti.Quando partiste nem me passou pela cabeça te pedir para ficar. Ah, não pense que me passa agora. Não foi por desprezo ou indiferença: eu apenas superei as saudades. Acontece que eu queria te perguntar, como uma melhor amiga de infância, o que é preciso para desprender-se.

Prometes guardar segredo? Ando com vontades loucas de sumir. Goodbye, au revoir, arrivederci. E quando falo em desaparecimento, refiro-me a mais do que deletar o perfil do orkut e o twitter. Mais até do que morrer.

É aquela velha história: o ar na redoma de vidro sufoca.

Já estou imaginando o teu riso ao ler tudo isso de novo. Sempre as mesmas reclamações. Eu sei que deveria pagar um terapeuta. Sei também que não terei respostas – nunca as tenho. Sumiste tão bem sumido que eu não faço idéia do lugar aonde foste parar. E é tudo tão pra sempre…

Eu só queria saber se encontraste aquela paz, aquele poder respirar fundo e com toda a calma do universo. Está tudo aí? Ou está tudo na minha cabeça confusa?

Eu penso que deve haver algum lugar assim, etéreo, onde a redoma desaparece para sempre. Se não houver, qual o sentido, então?

Sim, deve haver um porto.

Com todos os sentimentos do mundo
(os bons e os ruins),
Eu.

Escrito nas estrelas

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Dici che il fiume trova la via al mare
E come il fiume, giungerai a me
Oltre i confini e le terre assetate;
Dici che come fiume
Come fiume… L’amore giungerà
L’amore… E non so più pregare
E nell’amore non so più sperare
E quell’amore non so più aspettare
(Miss Sarajevo – Bono Vox e Pavarotti)
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Fechou os olhos e os ouvidos: não queria deixar-se influenciar pelos escritos e pelas melodias de outros. Em silêncio por fora é mais fácil calar o que grita lá dentro. E era tudo o que queria: calar os ultimatos da ausência. Por que cargas d’água ele precisava partir? Direções tão opostas as deles.As mãos, lambuzadas de creme, escorregaram. Não se permitiram prender nas dele. Tão opostas as direções. Até acreditou no horóscopo: quarta-feira será o seu melhor dia para o amor; as coisas ainda podem mudar. Vista azul. Preferiu o preto: era mais sensual e combinava com sua pele – branca demais. Droga de horóscopo. Maldito Saturno que nunca fica na casa certa para os que são de escorpião.

Ele também vestia preto quando se foi. Ela até acompanhou suas costas largas, se distanciando, ficando cada vez menor. Sobrou apenas uma mancha escura no final do longo corredor daquela estação de trem. Depois desapareceu. Mal teve tempo para dizer adeus e, de repente, estas músicas e estes escritos, tão tristes, insistiam em pressioná-la. Era preciso escrever uma carta – a última, talvez.

Ele precisava ter consciência de que a reencontraria – quer quisesse, quer não. Estava no seu mapa astral – impossível desviar. Tinha que avisá-lo que não adiantava fugir do tempo e das memórias. Não, baby, não era mais uma loucura qualquer. Tentou fazer parecer um comunicado, mas eram tão opostas as direções dos dois que tudo soou como súplica.

Por fim, restou apenas a promessa de que o esperaria. O mundo é redondo, afinal. Ele costumava dizer que amor verdadeiro é suicídio, mas Vênus entrará em libra em setembro. Isto significa mudanças para ele: certamente passará a pensar e agir diferente. Ainda mais considerando que outubro é o mês dela. Está no seu horóscopo: sorte no amor; vista rosa. Desta vez vestirá.

Uma linha reta

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“E a cada dia ampliava-se na boca
aquele gosto de morangos mofando,
verde doentio guardado no fundo escuro
de alguma gaveta”.

(Caio Fernando Abreu)
Apenas olhava pela janela, sem pensar em atirar-se, pôr um fim a tudo; ter calma, por fim. One more look, and I forget everything. Era uma festa, afinal. E aos que passavam, assim sem paciência, não era possível sacar que era daquela melancolia – dele – o cheiro de mofo do ar. Da sua respiração ácida provinha o odor quase insuportável da sala de estar. Ninguém ligava, tão bêbados e preocupados com nada.Se fosse um suicida, já o teria feito. Mas apenas mirava o chão distante. Pensava nela. Não que ela fosse um ser concreto, palpável, fodível. Era pura abstração. Ela poderia ser a chuva que o pegou durante toda a semana enquanto voltava do trabalho a pé. Perdeu o guarda-chuva há dois meses e ainda não comprou um novo. Todos os livros molhados, secando perto da lareira imaginária. Mas ela era mais que isso. Era a vontade louca de viajar e a falta de grana. Ela era a solidão que aprendeu a visitá-lo todas as noites. A cama que se fez grande demais e a saudade que virou sonho. Tudo tão surreal.

A chamava de angústia, porque não conhecia seu nome. A velha angst. Cruzou com ela num café, desses baratos mesmo. O jornal molhado debaixo do braço, a barba de uma semana e o triste reflexo no vidro espelhado da vitrine. Aliás, em vários momentos chegou à conclusão de que a encontrava sempre que olhava para si. Uma parasita qualquer coexistindo nele.

É lógico que era uma garota. Concreta, palpável, fodível. Impossível, obviamente. No fundo não sabia se a esperava ou recordava. A única coisa que conhecia era o vazio. A velha angst. Por isso mesmo estava ali, debruçado na janela daquele apartamento tão alto, cercado de amigos tão estranhos. Ela não estava dentro da sala de estar, fedendo mofo. Estaria na calçada, lá embaixo? Uma das formigas solitárias.

Precisava descer rápido, observar de perto as formigas. Ouviu falar que o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta. Mas ele não era desse tipo. Se o fosse, já o teria feito. Apenas olhava, não?

Enquanto a covardia e a preguiça dançavam lento, seus músculos começaram a se mover. Apenas um braço, uma mão e nada mais. Era preciso levar o drink até os lábios – lavar da boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

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Vivo falando em idas e voltas. Nada demais. Acho que o coração aos poucos aprende a amar em paz. Numa noite dessas a gente sente, doce e leve, um abraço como no começo. Antes do existir, o imaginar era mais forte. Mas não se incomode: é só o amor nos dilacerando de novo. E é outono, já. Começa a esfriar por aqui e em mim e em você e nas ruas das nossas cidades desertas de almas semelhantes. No fundo todo mundo é sozinho. Apenas não se esqueça (jamais se permita esquecer!) que hoje você me faz rir. Um riso solto, parecido com soluço. Tão sincero, amor. Claro que nós nunca fomos iguais – sequer parecidos. Mas me deixa fingir a completude. Os vazios são comuns em quem pensa. E amar é pensar – um buraco negro numa alma sem cores definidas. Um jogo de sombras. Aos poucos começa a esfriar por aqui. E mesmo sem razões definidas ou vontades intensas, eu sei que é você que eu quero outra vez: para me aquecer neste inverno e, numa noite dessas, me abraçar como no começo. Acredite, eu ainda me sinto daquele mesmo jeito.

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