para uma brisa gelada

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No fundo, sentir-se completo é o mesmo que não sentir nada. Absolutamente. Sentir é sentir falta. E, se não me falta coisa alguma, como costurar as palavras e fazer as paisagens com o que sinto? Antes fosse uma simples fotografia, nada impressionista ou expressionista. Apenas a realidade congelada no tempo, recortada e eternizada em P&B. Dar um clique é fácil, não preciso lembrar de obturadores e diafragmas porque basta colocar a câmera no automático, focar e apertar o botão. Então, por que ainda insisto nas pinceladas tímidas de uma criança que mal aprendeu a segurar o lápis-de-cor? No final acabo com respingos de tinta dos pés à cabeça; da cabeça aos pés. E quem entende essa minha arte avessa? Eu entendo que, quando não há mais a inspiração do sentir falta, sobra apenas um preço a ser pago em troca da completude: é preciso largar o pincel, esquecer as tintas mofadas em um canto qualquer e permitir-se viver sem a arte incompreensível dos sentimentos que sangram.O troco é silêncio e paz.

Eu poderia querer mais, mas acontece que, a esta altura do campeonato, não consigo pensar em nada mais justo.

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Não é justo, porque fui eu quem te deixou palavras escondidas no bolso do casaco pela primeira vez – há tanto tempo encontrado. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo, em dias assim). Não é certo, porque sou eu que espero, antes de fechar os olhos, que o dia seguinte seja diferente – que haja misticismo, magia, surpresa, você. E nunca há. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo, em dias assim). Por isso, não é apropriado que eu te siga em todos os cantos e quinas e muros e olhos bocas cabelos coisas. É doentio. (Eu sempre acho que vou morrer; e posso mesmo em dias assim). Não é correto que eu passe o resto destes dias amargos pagando pelo pecado de ser jovem burra insegura. Não é justo, porque a gente cresce. E cresço tanto que envelheço e morro. (Eu sempre acho que vou morrer;

e posso mesmo).

Será que você sente uma saudade culpa?

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Já não sei se sinto – às vezes só espero. E nesse esperar canso. Já não sei se penso ou vivo. Descanso. E me lembro, hora em hora, de você. Da gente. Enquanto isso: escrevo. Mas escrevo na cabeça e depois: esqueço. Os fios se cruzam, se prendem. Amarro você em mim – sem querer? Já não sei se quero. Espero. Quando mesmo que você disse que viria? Não disse. Nem é. Quantas manhãs e tardes e dias cabem em mim pequena? Evito crescer. Prometi que me casaria aos quarenta. Evito prometer. Espero.

Obituário

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Morreu na madrugada de hoje a guapeca Tisbe Maria. Entre seus maiores prazeres, pão com leite no café da manhã; no almoço, carne bem picadinha com arroz e molho e, no restante do dia, ração e o que mais seus donos a servissem. Com seus breves sete meses de vida – três deles passados na ONG Viva Bicho, sua maior alegria era passar as madrugadas no sofá com sua mamãe, enrolada no cobertor verde e assistindo a episódios de seriados norte-americanos ou lendo os clássicos da literatura mundial (Os sofrimentos do jovem Werther era o seu preferido). Dona de um rebolado inconfundível, atendia pelos nomes de Tisbe, Ibis, Neném, Nenenzinho, Bebê, Xibius e Menina – bastava dizê-los com carinho ou com alguma comida em mãos. Puríssima vira-lata com uma orelha abaixada e outra de pé, gastava suas manhãs dormindo e suas tardes caçando pássaros, ratos e formigas. Matou tantos quanto pôde, até que um pequeno vírus a matou. Deixa saudades no seu lar adotivo, principalmente na mamãe, que ainda chora sua perda.

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Tenho vários pedacinhos de nada espalhados pela mesa. Às vezes embaralho tudo e sorteio algum pra doer. Não ter nada dói. E, também, nem sei contar histórias. Só sentir saudade do ar. É que não ter nada sufoca.

já não consigo não pensar

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Essa beira de sacada já não é outra coisa senão um nó. No peito, nos dedos, no jeito. Esse fim de tarde de todo dia é nada, um espaço em branco. Uma espera sem nome. Uma saudade de você.

Shiii!

um silêncio tão doente, do vizinho reclamar.

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No final das contas eu queria não contar – as calorias que gasto, os dias que passam, as pessoas que transo, as manhãs em que acordo sozinha, os quilômetros. Eu queria não ligar, tirar do gancho, apagar o mapa. Dar um fim às canetas e papeis e correios e caixas. Ciúme de um você etéreo. Acaba a grana e o que sobra é nada. Sempre sobra nada. Perdi meu celular: cinco mensagens arruinadas – mais cartas que não mandei. Incomunicável. E não é assim que tem que ser? Que deveria ser? Correta mesmo é a correria, mais pra longe, mais pra nunca. Não é arrependimento. É que eu cresço. Todos os dias eu cresço, mas você não vê. Nem os seios nem o jeito. Teve o pior de mim. E o relógio tiquetaqueando me lembra que o tempo passa, mas sempre sobra nada. Por mais que eu aprenda, por melhor que morra ou pior que viva, sempre sobra o nada.

E eu sempre penso que merecia mais da gente.

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Cansada; e nem é porque você se foi. Busco desculpas pra falar da dor – justificar meus olhos e as outras coisas. Querido diário me aborrece. Tudo. E não faço bem porque não minto. Sem suportes para encarar o estranhamento que a verdade causa. E se a vó ler? Digo que inventei. E invento mesmo algum sentido e algum medo e causas. Nem é porque você se foi: é porque só sei falar de você e da saudade que passou. Sobra um nada que aborrece. Seria culpa sua de qualquer jeito.

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