No fundo, sentir-se completo é o mesmo que não sentir nada. Absolutamente. Sentir é sentir falta. E, se não me falta coisa alguma, como costurar as palavras e fazer as paisagens com o que sinto? Antes fosse uma simples fotografia, nada impressionista ou expressionista. Apenas a realidade congelada no tempo, recortada e eternizada em P&B. Dar um clique é fácil, não preciso lembrar de obturadores e diafragmas porque basta colocar a câmera no automático, focar e apertar o botão. Então, por que ainda insisto nas pinceladas tímidas de uma criança que mal aprendeu a segurar o lápis-de-cor? No final acabo com respingos de tinta dos pés à cabeça; da cabeça aos pés. E quem entende essa minha arte avessa? Eu entendo que, quando não há mais a inspiração do sentir falta, sobra apenas um preço a ser pago em troca da completude: é preciso largar o pincel, esquecer as tintas mofadas em um canto qualquer e permitir-se viver sem a arte incompreensível dos sentimentos que sangram.O troco é silêncio e paz.
Eu poderia querer mais, mas acontece que, a esta altura do campeonato, não consigo pensar em nada mais justo.

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