Atenção plena

Não tenho tempo para sofrer
Além das horas em trânsito
Quando não há escapatória
Senão seguir ao destino

No mais, vivo de traumas
Semi lúcida e inconsciente
Dos choques que me estimulam

Autômata

Ciente de que nada se transforma em experiência verdadeira sem o tempo do tédio — que neste presente não há.

Limpo a casa, vou à feira
Listo os problemas a resolver
Acordo cedo, tão cedo
Mas chego sempre atrasada

E não há tempo para doer
Ou esgotar qualquer culpa.

Todo dia eu me dirijo por horas
Todo dia eu me pergunto
Se estou na direção.

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Atenção plena

meio-sorriso meia-lua toda tarde

Eu desisti de tentar
E ainda assim me saboto
Muitas vezes.
Sinto um sono profundo
A cada vinte ou cinco dias
Que me nocauteia
Por outros sete
Trata-se de uma vontade
Vulgarmente sedutora
De retornar ao tempo
Em que fui semente:
Vazia de nada
Passível de tudo.
E o que posso, afinal, agora
Com esse caule grosseiro
Essa raiz pesada
E as muitas folhas
Que me sugam a alma
Para depois partir
Numa estação solitária?
Que controle a gente tem
Sobre a vida, a cultura
E o tempo?
Como escolher sentido algum
Além da bifurcação
Que hora após hora
Ressurge à minha frente?

(Como prova de que ando em círculos)

Sobreviver.
Ou dormir.

meio-sorriso meia-lua toda tarde

28

Veja bem, é outubro. Tive dias terríveis numa semana ruim que emendou no feriado prolongado. Choveu, fez sol, me aqueci e reguei. Primeiro dia útil, amanheço com três fios brancos brotados do crânio improdutivo. Encarei como bandeiras novas fincadas em terra de reforma agrária. Meu espírito, fragmentado, tomado por qualquer coisa que ressignifica. (Fui forte, fui tão forte. Tive raízes de figueiras centenárias. E então deserto, galhos secos e pó.) Agora me brotam essas ervas daninhas e reconheço que também elas são vida e sinto uma coisa pouca que pode até ser confundida com esperança de me rever ainda fértil. Se não floresta, jardim.

28

A musa me visita.

Posso sentir seu hálito. Posso roçar um pelo ereto. Estou cega, porém. E a musa me desvia. Preciso agarrá-la de definitivo. Cortejá-la, convidar a musa para morar no meu apartamento no meio da mata que virou loteamento para uma nova classe média com internet a rádio. Perceba meu dilema: em algum momento talvez inexpressivo e desinteressante eu juro para você que descobri o sentido da vida — estive lúcida e dissolveram-se nós de marinheira na minha mente. Onde isso? Hoje, agora, já não sei da vida e não sei mais de mim. Sou um emaranhado de cordas largado num balde. Minha lucidez retornou-se baldia: um bibelô quebrado na estante, um quadro empoeirado na parede, um pão mofado no armário, um lençol roto debaixo da cama. Nada sei e é esta a única constatação que me sinto segura a fazer. Já não vejo a musa e retorno minha alma penosa ao mundo dos paralisados sem lição para trazer senão a certeza de que fui perspicaz num dado momento. Ah, sim. Eu soube viver por uns segundos e tudo se fez cristalino. Mas me escorreu. Quando agora?

A musa me visita.

Diário de bordo

No ano passado eu me pós-graduei mestra

Com apenas 24 anos de idade

– Parabéns!

– Sucesso!

– E o doutorado?

No ano passado eu passei no meu primeiro concurso

para docente;

Professora universitária aos 25.

– Estava na hora!

– E paga bem?

No ano passado eu me apaixonei

Talvez pela primeira vez.

– Por uma mulher, que rebeldia!

– Quatorze anos mais velha, que ousadia!

Revelei-me publicamente

Diante do peru de natal de familiares

E amigos

Para quem não olho

Cuja voz não escuto

De quem eu não sei.

 

Ligaram para minha mãe:

– É verdade?

– Que história é essa?

– Enlouqueceu?

– É fase.

– É charme.

– É medo.

Meus inquisidores não acessaram

Tão profundamente

O seu espectro de emoções acaloradas

Quando me diplomei;

O telefone de minha mãe não tocou;

Nenhum ex-amor veio dizer-me

Que sou incapaz de ficar sem estudar

E que emendo um curso atrás do outro

Compulsivamente

Numa relação promíscua com livros

E áreas do conhecimento.

 

É que nada disso importa.

 

O que importa é preservar a dignidade

Do peru do cidadão de bem.

 

Diário de bordo

Todas as cartas de amor são ridículas

Minha amada,

Acordo todos os dias querendo te beijar os olhos e olhar teu rosto. Sinto saudades nas tuas ausências mais fugazes e sofro por aquelas que ainda não nos alcançaram. De onde vem o vento que te sopra os cabelos agora? Que tecido toca tua pele? Que curva faz tua boca? Qual a temperatura do teu sexo? Penso em você. Na calma com que te amo, que mesmo enlouquecida, descanso: na tua lembrança e na tua certeza; na paz que você coloca dentro de mim. É tanto sentimento, minha amada. Tantas partes de mim que você toca e movimenta e aquece e enternece. E é, ao mesmo tempo, tão simples e fácil te amar que não duvido de mim. Sei que te amo. Estou destinada a te amar desse jeito que tem jeito de para sempre. E estou condenada a padecer de saudades a cada partida. E a celebrar tua presença que se aproxima com os minutos. Tua presença ao meu lado, dentro de mim, em cima, do avesso. Em tudo de mim há muito de ti. E eu penso em você a todo o tempo. Queria te dizer isso, amada: que você está sempre comigo. E que conto do meu dia para a tua memória que caminha ao meu lado na calçada; reclamo do trânsito para o teu espírito sentado no banco do carona; pergunto o que você quer jantar para tua lembrança na cadeira à minha frente. Faço listas mentais de tudo o que me acontece na distância para te contar depois do encontro. E quando se aproxima o encontro (ah, querida!), esqueço-me de todos os relatos cotidianos e apenas imagino teus olhos que brilham, teu sorriso que se expande largo e fácil no momento em que você me vê chegar. E penso que ela me ama. Céus, ela me ama! Nada mais importa. Sou tua. E te olho o rosto. E te beijo os olhos.

Todas as cartas de amor são ridículas