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Veja bem, é outubro. Tive dias terríveis numa semana ruim que emendou no feriado prolongado. Choveu, fez sol, me aqueci e reguei. Primeiro dia útil, amanheço com três fios brancos brotados do crânio improdutivo. Encarei como bandeiras novas fincadas em terra de reforma agrária. Meu espírito, fragmentado, tomado por qualquer coisa que ressignifica. (Fui forte, fui tão forte. Tive raízes de figueiras centenárias. E então deserto, galhos secos e pó.) Agora me brotam essas ervas daninhas e reconheço que também elas são vida e sinto uma coisa pouca que pode até ser confundida com esperança de me rever ainda fértil. Se não floresta, jardim.

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A musa me visita.

Posso sentir seu hálito. Posso roçar um pelo ereto. Estou cega, porém. E a musa me desvia. Preciso agarrá-la de definitivo. Cortejá-la, convidar a musa para morar no meu apartamento no meio da mata que virou loteamento para uma nova classe média com internet a rádio. Perceba meu dilema: em algum momento talvez inexpressivo e desinteressante eu juro para você que descobri o sentido da vida — estive lúcida e dissolveram-se nós de marinheira na minha mente. Onde isso? Hoje, agora, já não sei da vida e não sei mais de mim. Sou um emaranhado de cordas largado num balde. Minha lucidez retornou-se baldia: um bibelô quebrado na estante, um quadro empoeirado na parede, um pão mofado no armário, um lençol roto debaixo da cama. Nada sei e é esta a única constatação que me sinto segura a fazer. Já não vejo a musa e retorno minha alma penosa ao mundo dos paralizados sem lição para trazer senão a certeza de que fui perspicaz num dado momento. Ah, sim. Eu soube viver por uns segundos e tudo se fez cristalino. Mas me escorreu. Quando agora?

A musa me visita.

Diário de bordo

No ano passado eu me pós-graduei mestra

Com apenas 24 anos de idade

– Parabéns!

– Sucesso!

– E o doutorado?

No ano passado eu passei no meu primeiro concurso

para docente;

Professora universitária aos 25.

– Estava na hora!

– E paga bem?

No ano passado eu me apaixonei

Talvez pela primeira vez.

– Por uma mulher, que rebeldia!

– Quatorze anos mais velha, que ousadia!

Revelei-me publicamente

Diante do peru de natal de familiares

E amigos

Para quem não olho

Cuja voz não escuto

De quem eu não sei.

 

Ligaram para minha mãe:

– É verdade?

– Que história é essa?

– Enlouqueceu?

– É fase.

– É charme.

– É medo.

Meus inquisidores não acessaram

Tão profundamente

O seu espectro de emoções acaloradas

Quando me diplomei;

O telefone de minha mãe não tocou;

Nenhum ex-amor veio dizer-me

Que sou incapaz de ficar sem estudar

E que emendo um curso atrás do outro

Compulsivamente

Numa relação promíscua com livros

E áreas do conhecimento.

 

É que nada disso importa.

 

O que importa é preservar a dignidade

Do peru do cidadão de bem.

 

Diário de bordo

Todas as cartas de amor são ridículas

Minha amada,

Acordo todos os dias querendo te beijar os olhos e olhar teu rosto. Sinto saudades nas tuas ausências mais fugazes e sofro por aquelas que ainda não nos alcançaram. De onde vem o vento que te sopra os cabelos agora? Que tecido toca tua pele? Que curva faz tua boca? Qual a temperatura do teu sexo? Penso em você. Na calma com que te amo, que mesmo enlouquecida, descanso: na tua lembrança e na tua certeza; na paz que você coloca dentro de mim. É tanto sentimento, minha amada. Tantas partes de mim que você toca e movimenta e aquece e enternece. E é, ao mesmo tempo, tão simples e fácil te amar que não duvido de mim. Sei que te amo. Estou destinada a te amar desse jeito que tem jeito de para sempre. E estou condenada a padecer de saudades a cada partida. E a celebrar tua presença que se aproxima com os minutos. Tua presença ao meu lado, dentro de mim, em cima, do avesso. Em tudo de mim há muito de ti. E eu penso em você a todo o tempo. Queria te dizer isso, amada: que você está sempre comigo. E que conto do meu dia para a tua memória que caminha ao meu lado na calçada; reclamo do trânsito para o teu espírito sentado no banco do carona; pergunto o que você quer jantar para tua lembrança na cadeira à minha frente. Faço listas mentais de tudo o que me acontece na distância para te contar depois do encontro. E quando se aproxima o encontro (ah, querida!), esqueço-me de todos os relatos cotidianos e apenas imagino teus olhos que brilham, teu sorriso que se expande largo e fácil no momento em que você me vê chegar. E penso que ela me ama. Céus, ela me ama! Nada mais importa. Sou tua. E te olho o rosto. E te beijo os olhos.

Todas as cartas de amor são ridículas

Depois de amanhã já não sei.

Eu me adapto, é só o que faço. Poderia ser minha, num apartamento de um quarto em uma cidade grande. Distante. Seria uma executiva e cada promoção viria à custa do fracasso de um outro. E saberia bajular quem decide sem um nada de culpa jamais. Ou então, se a vida mandasse – e obedeço sempre – poderia ser a doce professora que ensina informática para crianças carentes ou história para adolescentes ricos. Poderia morar em uma comunidade religiosa e acordar às quatro, orações matinais, tarefas braçais, castidade e silêncio muito silêncio. Poderia me calar para sempre. Ou cantar em um bar, na rua, por trocados, por um cachê milionário, por sexo. Qualquer coisa eu faria se a vida assim o quisesse e acho mesmo que o faria com a mesma paixão polida e a mesma indiferença calculada com que faço isto e nada. Eu poderia ser a esposa de um pescador esperando – a salada temperada, o arroz cozido – que ele chegue com o peixe para eu terminar de preparar a janta. Uma casa de madeira às margens do manguezal que desemboca no mar. Alguns cachorros. Uma cabra. Eu poderia te amar com a mesma sinceridade com que poderia me esquecer de ti porque uma parte de mim está sempre distante, sozinha num apartamento de um quarto, dentro. Já sou. E já sendo, qualquer coisa me basta. Ao menos hoje. Ao menos agora. Do lado de fora.

Depois de amanhã já não sei.

Essa rua é jamais

O que eu sinto por essa rua talvez seja amor. Nem é bela, mas é a rua que vivi nessa cidade. Uma rua classe média de lixo recolhido todo dia. Tem bar, mercearia, padaria e farmácia. Tem muita sombra de muitos prédios e concreto quebrado. Tem uma praça com playground de madeira pintada com cores da infância: três balanços, um escorregador e duas gangorras. Se crianças corressem e brincassem por essa rua, nessa praça, talvez eu pudesse dizê-la bela. Mas não o fazem e não posso dizer isso apesar do amor que acredito e juro sentir por essa rua. A cidade, essa é bela. Mas eu não vivi a cidade. Só o que experimentei foi a rua. Conheci uma velha e um velho que me cumprimentam com um sorriso largo, como se soubessem de mim ou assumissem de mim, assim sem saber, uma alma semelhante. Boa tarde. Bom dia. Esfriou. Choveu muito e lavou a poeira da rua.

Essa rua é ladeira. Ladeira que subo e ladeira que deito, em posição fetal, abraçando os joelhos. Habitei por um ano essa rua e nela me esqueci categórica e definitivamente de você. Bebo a última cerveja que jamais beberei nessa rua e do bar olho a pracinha vazia de crianças e entorpecidos. Essa rua é pacífica. Um rapaz passeia com seu cachorro. Parece ter a minha idade, mas talvez seja alguns anos mais jovem porque tem, percebo, o caminhar solto e despreocupado dos estudantes. Dos protegidos. Mastiga algo que imagino ser chiclete e leva as mãos nos bolsos. O cachorro o segue sem coleira e com o rabo em riste. Às vezes se afasta do humano que o guia para comer algum capim, cheirar algum vestígio da passagem de outros cães por ali. Observo até que dobrem a esquina e sumam para sempre me fazendo pensar num amor à última vista.

Planejo passar na farmácia e comprar a última cartela de analgésico que jamais comprarei nessa rua. Boa noite. Esfriou. O frio chega muito forte aqui por causa do vento. O velho é quem me atende na farmácia. Ele me sorri tranquilo, como quem desconhece o momento imperativo do adeus. Já é ausência. Em algum dia, mas duvido, talvez eu volte a pisar nessa rua e ele já morreu. E choro a sua morte como choro a perda da vida, a minha, nessa rua sem graça, classe média, com gangorra e escorregador fantasma. Bar, mercearia, pet shop.

Na janela do meu apartamento de três quartos e sala grande, tão maior do que aquela com o retrato imenso de Jesus Cristo que foi a sala em que cresci bem cuidada e bem amada e bem polida, dessa janela de onde fumo um cigarro mentolado a paisagem que contemplo é a rua. É a janela desse agora que se esvai rápido e definitivo e dela eu digo adeus para a rua e digo adeus para quem eu fui na Capitão Romualdo de Barros: estudante, livre, maconheira, jovem.

Essa rua é jamais