A musa me visita.

Posso sentir seu hálito. Posso roçar um pelo ereto. Estou cega, porém. E a musa me desvia. Preciso agarrá-la de definitivo. Cortejá-la, convidar a musa para morar no meu apartamento no meio da mata que virou loteamento para uma nova classe média com internet a rádio. Perceba meu dilema: em algum momento talvez inexpressivo e desinteressante eu juro para você que descobri o sentido da vida — estive lúcida e dissolveram-se nós de marinheira na minha mente. Onde isso? Hoje, agora, já não sei da vida e não sei mais de mim. Sou um emaranhado de cordas largado num balde. Minha lucidez retornou-se baldia: um bibelô quebrado na estante, um quadro empoeirado na parede, um pão mofado no armário, um lençol roto debaixo da cama. Nada sei e é esta a única constatação que me sinto segura a fazer. Já não vejo a musa e retorno minha alma penosa ao mundo dos paralizados sem lição para trazer senão a certeza de que fui perspicaz num dado momento. Ah, sim. Eu soube viver por uns segundos e tudo se fez cristalino. Mas me escorreu. Quando agora?

A musa me visita.

Diário de bordo

No ano passado eu me pós-graduei mestra

Com apenas 24 anos de idade

– Parabéns!

– Sucesso!

– E o doutorado?

No ano passado eu passei no meu primeiro concurso

para docente;

Professora universitária aos 25.

– Estava na hora!

– E paga bem?

No ano passado eu me apaixonei

Talvez pela primeira vez.

– Por uma mulher, que rebeldia!

– Quatorze anos mais velha, que ousadia!

Revelei-me publicamente

Diante do peru de natal de familiares

E amigos

Para quem não olho

Cuja voz não escuto

De quem eu não sei.

 

Ligaram para minha mãe:

– É verdade?

– Que história é essa?

– Enlouqueceu?

– É fase.

– É charme.

– É medo.

Meus inquisidores não acessaram

Tão profundamente

O seu espectro de emoções acaloradas

Quando me diplomei;

O telefone de minha mãe não tocou;

Nenhum ex-amor veio dizer-me

Que sou incapaz de ficar sem estudar

E que emendo um curso atrás do outro

Compulsivamente

Numa relação promíscua com livros

E áreas do conhecimento.

 

É que nada disso importa.

 

O que importa é preservar a dignidade

Do peru do cidadão de bem.

 

Diário de bordo

Todas as cartas de amor são ridículas

Minha amada,

Acordo todos os dias querendo te beijar os olhos e olhar teu rosto. Sinto saudades nas tuas ausências mais fugazes e sofro por aquelas que ainda não nos alcançaram. De onde vem o vento que te sopra os cabelos agora? Que tecido toca tua pele? Que curva faz tua boca? Qual a temperatura do teu sexo? Penso em você. Na calma com que te amo, que mesmo enlouquecida, descanso: na tua lembrança e na tua certeza; na paz que você coloca dentro de mim. É tanto sentimento, minha amada. Tantas partes de mim que você toca e movimenta e aquece e enternece. E é, ao mesmo tempo, tão simples e fácil te amar que não duvido de mim. Sei que te amo. Estou destinada a te amar desse jeito que tem jeito de para sempre. E estou condenada a padecer de saudades a cada partida. E a celebrar tua presença que se aproxima com os minutos. Tua presença ao meu lado, dentro de mim, em cima, do avesso. Em tudo de mim há muito de ti. E eu penso em você a todo o tempo. Queria te dizer isso, amada: que você está sempre comigo. E que conto do meu dia para a tua memória que caminha ao meu lado na calçada; reclamo do trânsito para o teu espírito sentado no banco do carona; pergunto o que você quer jantar para tua lembrança na cadeira à minha frente. Faço listas mentais de tudo o que me acontece na distância para te contar depois do encontro. E quando se aproxima o encontro (ah, querida!), esqueço-me de todos os relatos cotidianos e apenas imagino teus olhos que brilham, teu sorriso que se expande largo e fácil no momento em que você me vê chegar. E penso que ela me ama. Céus, ela me ama! Nada mais importa. Sou tua. E te olho o rosto. E te beijo os olhos.

Todas as cartas de amor são ridículas

Depois de amanhã já não sei.

Eu me adapto, é só o que faço. Poderia ser minha, num apartamento de um quarto em uma cidade grande. Distante. Seria uma executiva e cada promoção viria à custa do fracasso de um outro. E saberia bajular quem decide sem um nada de culpa jamais. Ou então, se a vida mandasse – e obedeço sempre – poderia ser a doce professora que ensina informática para crianças carentes ou história para adolescentes ricos. Poderia morar em uma comunidade religiosa e acordar às quatro, orações matinais, tarefas braçais, castidade e silêncio muito silêncio. Poderia me calar para sempre. Ou cantar em um bar, na rua, por trocados, por um cachê milionário, por sexo. Qualquer coisa eu faria se a vida assim o quisesse e acho mesmo que o faria com a mesma paixão polida e a mesma indiferença calculada com que faço isto e nada. Eu poderia ser a esposa de um pescador esperando – a salada temperada, o arroz cozido – que ele chegue com o peixe para eu terminar de preparar a janta. Uma casa de madeira às margens do manguezal que desemboca no mar. Alguns cachorros. Uma cabra. Eu poderia te amar com a mesma sinceridade com que poderia me esquecer de ti porque uma parte de mim está sempre distante, sozinha num apartamento de um quarto, dentro. Já sou. E já sendo, qualquer coisa me basta. Ao menos hoje. Ao menos agora. Do lado de fora.

Depois de amanhã já não sei.

Essa rua é jamais

O que eu sinto por essa rua talvez seja amor. Nem é bela, mas é a rua que vivi nessa cidade. Uma rua classe média de lixo recolhido todo dia. Tem bar, mercearia, padaria e farmácia. Tem muita sombra de muitos prédios e concreto quebrado. Tem uma praça com playground de madeira pintada com cores da infância: três balanços, um escorregador e duas gangorras. Se crianças corressem e brincassem por essa rua, nessa praça, talvez eu pudesse dizê-la bela. Mas não o fazem e não posso dizer isso apesar do amor que acredito e juro sentir por essa rua. A cidade, essa é bela. Mas eu não vivi a cidade. Só o que experimentei foi a rua. Conheci uma velha e um velho que me cumprimentam com um sorriso largo, como se soubessem de mim ou assumissem de mim, assim sem saber, uma alma semelhante. Boa tarde. Bom dia. Esfriou. Choveu muito e lavou a poeira da rua.

Essa rua é ladeira. Ladeira que subo e ladeira que deito, em posição fetal, abraçando os joelhos. Habitei por um ano essa rua e nela me esqueci categórica e definitivamente de você. Bebo a última cerveja que jamais beberei nessa rua e do bar olho a pracinha vazia de crianças e entorpecidos. Essa rua é pacífica. Um rapaz passeia com seu cachorro. Parece ter a minha idade, mas talvez seja alguns anos mais jovem porque tem, percebo, o caminhar solto e despreocupado dos estudantes. Dos protegidos. Mastiga algo que imagino ser chiclete e leva as mãos nos bolsos. O cachorro o segue sem coleira e com o rabo em riste. Às vezes se afasta do humano que o guia para comer algum capim, cheirar algum vestígio da passagem de outros cães por ali. Observo até que dobrem a esquina e sumam para sempre me fazendo pensar num amor à última vista.

Planejo passar na farmácia e comprar a última cartela de analgésico que jamais comprarei nessa rua. Boa noite. Esfriou. O frio chega muito forte aqui por causa do vento. O velho é quem me atende na farmácia. Ele me sorri tranquilo, como quem desconhece o momento imperativo do adeus. Já é ausência. Em algum dia, mas duvido, talvez eu volte a pisar nessa rua e ele já morreu. E choro a sua morte como choro a perda da vida, a minha, nessa rua sem graça, classe média, com gangorra e escorregador fantasma. Bar, mercearia, pet shop.

Na janela do meu apartamento de três quartos e sala grande, tão maior do que aquela com o retrato imenso de Jesus Cristo que foi a sala em que cresci bem cuidada e bem amada e bem polida, dessa janela de onde fumo um cigarro mentolado a paisagem que contemplo é a rua. É a janela desse agora que se esvai rápido e definitivo e dela eu digo adeus para a rua e digo adeus para quem eu fui na Capitão Romualdo de Barros: estudante, livre, maconheira, jovem.

Essa rua é jamais

uma ilha

Queria lhe contar que agora eu acordo cedo. Agora, eu olho pela janela e do outro lado não há um poço de concreto cinza e noite. Não. Quando eu olho pela janela, agora, vejo outras janelas cheias de pessoas que também estão acordadas e bebem de suas xícaras em roupões macios e vejo um pedaço da rua e um pedaço de mato. Os dias têm cheirado a frio e amaciante e incenso e misto-quente por aqui. E eu queria lhe contar que agora tomo café da manhã e almoço e me alimento direitinho para não ficar amarela e pálida e sozinha. Como feijão e beterraba e fígado. Também queria falar que tenho lido todos os livros e textos e escrevi quinze páginas e sonhei que você estava aqui. Então, o que eu queria mesmo dizer é que você pode vir agora porque agora está tudo bem e porque agora eu não estou mais triste nem doente nem perdida nem nada. Só saudade mesmo.

uma ilha