A musa me visita.

Posso sentir seu hálito. Posso roçar um pelo ereto. Estou cega, porém. E a musa me desvia. Preciso agarrá-la de definitivo. Cortejá-la, convidar a musa para morar no meu apartamento no meio da mata que virou loteamento para uma nova classe média com internet a rádio. Perceba meu dilema: em algum momento talvez inexpressivo e desinteressante eu juro para você que descobri o sentido da vida — estive lúcida e dissolveram-se nós de marinheira na minha mente. Onde isso? Hoje, agora, já não sei da vida e não sei mais de mim. Sou um emaranhado de cordas largado num balde. Minha lucidez retornou-se baldia: um bibelô quebrado na estante, um quadro empoeirado na parede, um pão mofado no armário, um lençol roto debaixo da cama. Nada sei e é esta a única constatação que me sinto segura a fazer. Já não vejo a musa e retorno minha alma penosa ao mundo dos paralizados sem lição para trazer senão a certeza de que fui perspicaz num dado momento. Ah, sim. Eu soube viver por uns segundos e tudo se fez cristalino. Mas me escorreu. Quando agora?

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