uma ilha

Queria lhe contar que agora eu acordo cedo. Agora, eu olho pela janela e do outro lado não há um poço de concreto cinza e noite. Não. Quando eu olho pela janela, agora, vejo outras janelas cheias de pessoas que também estão acordadas e bebem de suas xícaras em roupões macios e vejo um pedaço da rua e um pedaço de mato. Os dias têm cheirado a frio e amaciante e incenso e misto-quente por aqui. E eu queria lhe contar que agora tomo café da manhã e almoço e me alimento direitinho para não ficar amarela e pálida e sozinha. Como feijão e beterraba e fígado. Também queria falar que tenho lido todos os livros e textos e escrevi quinze páginas e sonhei que você estava aqui. Então, o que eu queria mesmo dizer é que você pode vir agora porque agora está tudo bem e porque agora eu não estou mais triste nem doente nem perdida nem nada. Só saudade mesmo.

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uma ilha

hoje

Eu te imagino agora assim, sorrindo, e penso que eu gostaria muito de ser sua amiga e lhe dizer que você – desse jeito que está ultimamente, mas também quando era triste – é o meu tipo preferido de gente. Queria ser sua amiga e lhe contar que a sua angústia era boa, porque era a angústia de quem se importa com o mundo e com os outros e com as velhinhas que cantam sem instrumento no coral da igreja. E a sua raiva era boa, porque era a raiva de quem espera o melhor das pessoas e se decepciona porque só o que as pessoas têm para nos oferecer é decepção e tristeza e amargura. Mas não as pessoas como você. Então eu queria ser sua amiga e dizer para você que a sua sensibilidade me comove porque não é egoísta e nem doce demais desse tipo que azeda. Essa sua sensibilidade, vou dizer, é o que eu mais amo em você, penso, às vezes, quando me dou conta que ela o tira da forma de teflon com buraquinhos no formato do homem-como-deve-ser. E você é você. E você não deveria ser mais ninguém, porque você – assim como é – é o meu tipo preferido de gente. Com sua fé e sua raiva e sua bondade e sua voz e sua angústia e suas mãos e o fato de que você já foi meu amigo, mas não é mais.

hoje

o que seria?

Eu tinha uma coisa importante para dizer. Algo sobre não ser frágil e o fato de nada me doer como deveria. Nada me dói. Certamente não era sobre o meu cabelo que demora meses para crescer poucos centímetros e corto tudo como se não fosse nada. E não sinto nada. Talvez fosse algo sobre você. Sobre como a sua voz me faz respirar cheiro de vento gelado com grama recém-cortada e xampu anticaspa. E sobre como eu racionalizo essa minha nossa história para não bater saudade na cara ou tapa na bunda ou chute no saco. Talvez não tivesse importância o que eu tinha para dizer. Mas era algo. Sim. Seria sobre o sono e a vontade de dormir muito e dormir para sempre que eu sinto quando penso em você? E durmo mesmo. Dias a fio. Apaguei duas semanas do meu calendário. E aí não penso em nada. Nem em como deveria ser difícil estar longe e estar sozinha e ter tantos livros para ler e tantas páginas para escrever e tantos débitos na conta bancária e tantos nuncas no focinho. Nada disso é difícil. Difícil é não lembrar. É, acho que eu tinha algo muito importante para lhe dizer. Mas o que?

o que seria?

Sobre o amor

O menino cutuca o interior do nariz com a ponta do indicador. Limpa na almofada da cadeira e torna a usar o mesmo dedo, desta vez no ouvido. Gira e afunda dentro da orelha, fecha os olhos, emite aquele ruído grotesco de quem coça a garganta. Não tenho asco – o que tenho é vontade de abraçar o menino. Se eu lhe amasse tanto quanto amo o menino agora, talvez ainda nos restasse uma chance. Talvez você pudesse pegar o primeiro trem da manhã e vir para cá. O amanhecer lhe traria para mim e eu sentiria de novo aquele formigar na barriga, aquele aperto no peito e uma puta vontade de chorar. Mas eu me controlo muito bem agora que sou adulta. Dei um jeito de secar as lágrimas e de amar mais as coisas que não precisam de mim. Coisas cuja existência independe de mim. Coisas que são belas porque o são e não apenas porque você partiu para longe e me deixou sozinha e triste.
No sexto andar do prédio vizinho mora um casal que assiste tevê até às seis da manhã. Eles deixam as portas e janelas abertas, usam pouca roupa e se esparramam pelo sofá. A cada quinze ou vinte minutos, talvez menos, não sei, um deles sai à sacada e fuma um cigarro. Revezam-se. Não movem os lábios e não trocam olhares. Apenas fumam e assistem tevê. Nesse seu agir automático, de olhos vazios, acabam por dividir o mesmo canal, o mesmo sofá, a mesma sacada e o mesmo maço. Todos os dias. E eu apenas observo e penso: se eu lhe amasse tanto quanto amo aquele casal, talvez eu pudesse lhe convencer a voltar para mim. E quando esse vestígio de dor aguda me encontra e me acelera as batidas por dois segundos e meio, cogito a hipótese de lhe tocar. E ameaço escrever uma carta molhada falando sobre como, apesar do resquício de dor, o meu amor por você não é suficientemente forte para remover a distância ou fazê-lo me amar de volta. Mas eu tenho muita preguiça de pensar em você agora que sou adulta. Tanta, que abandono o texto inacabado e vou dormir.

Sobre o amor

Ontem

Eu sempre o percebo deslocado. Nós até chegamos ao consenso forçado de que é melhor assim desse jeito meio torto e meio certo. Mas eu olho para ele através da multidão de rostos estranhos que o cercam diariamente e que esperam algo e que o sugam beirando o limite da exaustão e eu o percebo deslocado. E eu o percebo cansado. Se ele ainda é um pouco como eu, se ele ainda tem em si aquela ruína de bondade ou compaixão ou qualquer outra dessas frescuras que nos obrigam a ensaiar um sorriso e forçar alguma empatia, ele se sente culpado por sentir-se fora do lugar. Ele precisa agradar a todos, deve provar que está feliz, que tem o que merece e que há tanta gente por aí que nem sequer sonha em alcançar um terço do que ele possui. Precisa ser grato e fazer o melhor possível com o que está ao alcance de suas mãos. Tem as melhores mãos, ele. Mas em detrimento próprio, todos dias acorda repetindo o gesto vazio de se convencer que é amor, está tudo certo, nada falta, nada o aflige mesmo quando se percebe sozinho no quarto evitando aproximar-se das ruínas do que teve há tanto tempo perdido. Onde agora? Por quais ruas caminha? Quais luas ainda é capaz de notar com aquela antiga obsessão de que é a mesma lua: aqui e lá? É esse aí o seu lugar, meu amor? Você pode sonhar, sabe? A pessoa, forte como ele, é capaz de fazer tudo o que bem entender. Basta querer. Basta perder a compaixão, abraçar o egoísmo, implodir o coração, desistir de ser feliz. E então, quem sabe, finalmente descriptografar o cadeado da felicidade genuína – aquela que é inteira de si mesma. Deve existir. Já ouvi falar. Mas onde agora?

Ontem

Memória

A fotografia ainda é jovem em seu papel brilhante e suas cores vivas. Penso que não deveria ser assim. Esses objetos que tocam a memória deveriam ser todos gastos, tudo ruína. Como as cartas que ele me escreveu antes de repartir. Têm dobras firmes de cor marrom e alguns rasgos e uma tinta manchada não de choro. De nada. De oxigênio que corrói a matéria orgânica suspensa no abismo do nada. Às vezes prendo a respiração para ver se preservo viva a memória que também, de amiúde,  se desmancha. Fecho os olhos, solto todo o ar e tranco nariz e boca. Tento escutar uma voz, arquitetar um rosto, juntar tudo numa fala que já nem sei se existiu ou inventei. É estranho. Mas eu sei: posso transformar esse vácuo em coisa. Se me esforço, faço também desse resto de memória, nostalgia. Sei porque li: um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento rememorado é sem limites, pois é apenas uma chave pra tudo o que veio antes e depois. E o que vem agora? Uma imagem de ruína. Brilhante. Colorida.

Memória

lembrança

Ao voltar, provavelmente pela última vez, viu as crianças soltando pipa no terreno baldio perto da casa onde ela costumava morar e percebeu que pouco mudara. As tardes de maio mantiveram o brilho amarelo de um sol gelado e o vento ainda tinha a mesma essência agridoce: uma mistura de grama recém-cortada, terra vermelha, mijo seco e shampoo – o dela. Cada lugar tem um cheiro, pensou. Li certa vez que nada toca tanto a superfície da memória quanto os odores reconhecidos. Desejou não ter voltado, apesar das circunstâncias. É estranho notar as crianças crescidas, velhos mortos, casas vazias. Talvez tenha ocorrido a ele, ainda que por breves frações de segundo apenas, o esboço de algum arrependimento. Jamais ter partido. Voltar atrás e ver velhos vivos, casas cheias, crianças ainda inocentes. Nada disso aqui é meu; essas memórias não são minhas, essa história nunca me pertenceu. Em poucas intermináveis horas cumpriu seus deveres, recebeu condolências com cortesia, assinou uma procuração para que tratassem da herança por ele e partiu como da primeira vez: categórico no desejo de não voltar. Nada mais me liga a essa terra, essas crianças não são minhas, meus mortos não retornarão à vida, o perfume dela já não me dói.

lembrança