todo mundo se sente uma bosta?

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todo mundo se sente uma bosta?

Sobre o amor

O menino cutuca o interior do nariz com a ponta do indicador. Limpa na almofada da cadeira e torna a usar o mesmo dedo, desta vez no ouvido. Gira e afunda dentro da orelha, fecha os olhos, emite aquele ruído grotesco de quem coça a garganta. Não tenho asco – o que tenho é vontade de abraçar o menino. Se eu lhe amasse tanto quanto amo o menino agora, talvez ainda nos restasse uma chance. Talvez você pudesse pegar o primeiro trem da manhã e vir para cá. O amanhecer lhe traria para mim e eu sentiria de novo aquele formigar na barriga, aquele aperto no peito e uma puta vontade de chorar. Mas eu me controlo muito bem agora que sou adulta. Dei um jeito de secar as lágrimas e de amar mais as coisas que não precisam de mim. Coisas cuja existência independe de mim. Coisas que são belas porque o são e não apenas porque você partiu para longe e me deixou sozinha e triste.
No sexto andar do prédio vizinho mora um casal que assiste tevê até às seis da manhã. Eles deixam as portas e janelas abertas, usam pouca roupa e se esparramam pelo sofá. A cada quinze ou vinte minutos, talvez menos, não sei, um deles sai à sacada e fuma um cigarro. Revezam-se. Não movem os lábios e não trocam olhares. Apenas fumam e assistem tevê. Nesse seu agir automático, de olhos vazios, acabam por dividir o mesmo canal, o mesmo sofá, a mesma sacada e o mesmo maço. Todos os dias. E eu apenas observo e penso: se eu lhe amasse tanto quanto amo aquele casal, talvez eu pudesse lhe convencer a voltar para mim. E quando esse vestígio de dor aguda me encontra e me acelera as batidas por dois segundos e meio, cogito a hipótese de lhe tocar. E ameaço escrever uma carta molhada falando sobre como, apesar do resquício de dor, o meu amor por você não é suficientemente forte para remover a distância ou fazê-lo me amar de volta. Mas eu tenho muita preguiça de pensar em você agora que sou adulta. Tanta, que abandono o texto inacabado e vou dormir.

Sobre o amor

You can’t always get what you want

Hoje eu decidi ter fé. Deixar que as coisas aconteçam no tempo devido e permitir que um poder superior decida por mim. Escolhi pensar que tudo tem a sua hora e que, cedo ou tarde, vai dar certo: o emprego, o sonho, eu e você. E se não for, então será porque não era para ser. E não era para haver esse abismo entre a gente, mas a gente não tem escolha. E a gente vive essas horas corridas procrastinando uma decisão que não é nossa. Nunca foi. É por isso que hoje eu decidi ter fé e esperar o melhor, apesar de toda essa distância, todo esse deserto, esse silêncio que se espalha ligeiro sobre a superfície dos meus dias sem você. O fato é que não dá para se ter sempre o se que quer. Mas se você tentar, às vezes você percebe que tem exatamente o que precisa.

You can’t always get what you want

E ponto

A muito custo convenci as gavetas: já não é nada a ausência dele. Superei à exaustão as incorrespondências. A vizinha, que acompanhou tudo da janela, diz que é culpa da distância, por aqui ele te amaria. Descreio, mas finjo não importar. A verdade é que a saudade dele já não me traz nada novo. Adiei essa faxina mental porque, pensei, reviveria a dor. Mas insisto: não foi nada. Nada como a vez em que decidi que ele deveria morrer ou quando, pior, quis eu mesma dormir demais. Não pensei em implorar que ele voltasse. Não o quero. E nem o vazio costumeiro deu sinal, comum aos fins de tarde com brisa de quando eu decidia, imperativa, que não havia motivos. Nem amor, entre ele e eu, havia. Quanta dor pode caber em sete anos? Já nem me lembro, sério.

Ao lixo com estes fragmentos do que não fui.

E ponto

É mais claro agora que as janelas são maiores. Já não ensaio aos deuses um desperdício de tempo, de dor. São mais longas as horas agora que o dia acostumou dormir tarde. E não sinto medo do encontro, irremediável encontro entre a clarividência e o tempo. As vontades aprenderam a ser sutis e é mais fácil, agora, fingir que está tudo bem.

agora sim

Patético o quanto precisei pensar para chegar à conclusão óbvia de que é você o amor da minha vida. A gente é arredia, evita acreditar que o mais fácil é o melhor. Até porque quase nunca o é. Mas é. Não há nada lá fora, no antes ou depois, que me ofereça barganha melhor do que o ter pra mim. Cogitei hipóteses, considerei possibilidades aterradoras, enfrentei a fúria dos deuses e as crises hormonais. Tudo me levou à conclusão óbvia de que é você. E é óbvio que não há nada lá fora.

agora sim

Dizem que eu não devia mais querer você

Quando eu repeti mentalmente cada uma destas histórias curtas da felicidade pela milionésima segunda vez me dei conta de que não eram sobre mim. De que maneira seriam? Mesmo contando as horas perdidas na sala vip, tevê ligada na globo news, internet sem fio, sem volta, eternamente à espera. Não tinha como. Ainda hoje, cada sorriso é tão cuspido e esganado que o conceito de felicidade faz deboche. Lembrei das irmãs carmelitas e quis voltar no tempo – o bastante para a clausura, não perseguir seus rastros, voto de silêncio, não agarrar sua lembrança aos berros, poupar a goela, ter alguém que me faça o supermercado, preencher o tédio com as orações matinais e vespertinas e noturnas e da madrugada. E quando o cansaço se impusesse, dia cheio, afazeres, louvor, não haveria mão que sustentasse a mais leve pena. E seria, por Deus!, seria o fim do amor (que tive). Mas eu te quero tanto
que dói.

Dizem que eu não devia mais querer você